Nos EUA, Lula lembra divergência pública com presidente da Vale

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que o processo de substituição no comando da Vale deve ser encarado com naturalidade e lembrou das divergências públicas que teve com Roger Agnelli durante seu governo.

“Todo mundo sabe que eu tinha uma divergência pública com o Roger, que era de fazer investimentos no Brasil”, disse Lula, em Washington, ao ser questionado por jornalistas após participar como orador de um evento promovido pela Microsoft.

“Quando ele comprou navios na China, eu fiquei muito chateado. A teoria dele de que não poderia construir siderúrgica para não competir com os clientes era equivocada, porque a gente vendia minério de ferro com a China e depois a gente importava aço da China. Então era melhor que a gente produzisse o aço e exportasse para a China.”

Agnelli será substituído na presidência da Vale pelo executivo Murilo Ferreira. Segundo Lula, a mudança é um problema do conselho de administração da empresa e da presidente Dilma Rousseff.

“Eu vejo com uma certa naturalidade. Porque eu já disse que ninguém é imprescindível nem insubstituível. Aliás eu tive a oportunidade de dizer ao amigo Roger isso há uns 10 dias atrás.”

Lula disse ainda que quando Agnelli foi indicado ao cargo “era um desconhecido”, e que é preciso acreditar que o indicado para substituí-lo “vai prestar os mesmos serviços à Vale e ao país”.

“Hoje, o Roger é tão bom que eu acho que vou levá-lo para o instituto para trabalhar comigo”, brincou, ao referir-se ao Instituto Lula, organização não-governamental que deverá comandar, ainda em processo de criação.

Mensalão

Questionado a respeito do relatório final da Polícia Federal sobre o esquema do mensalão, Lula disse que “não tem relatório final”.

“Tem uma peça que dizem que foi o relatório produzido pela Polícia Federal”, afirmou. “Se aquilo for entrar nos autos do processo você imagina o que vai acontecer. Todos os advogados de defesa vão pedir prazo para estudar, ou seja, isso vai ser julgado em 2050.”

Lula disse ainda que não viu o documento. “Não tive chance de dar olhada, e nem vou olhar. Não sou advogado.”

O ex-presidente fez na capital americana sua estréia como palestrante internacional remunerado – o cachê é segredo, mas estima-se que na primeira palestra feita no Brasil, no mês passado, tenha recebido até R$ 200 mil.

Principal orador do Fórum de Líderes do Setor Público da América Latina e Caribe, promovido pela Microsoft, Lula falou durante 40 minutos sobre a experiência do Brasil no setor de educação. Muito aplaudido, contou também um pouco de sua própria trajetória, desde quando foi o primeiro dos oito irmãos a conseguir diploma primário até chegar à Presidência.

Logo após a palestra, o ex-presidente ainda debateu alguns temas com a plateia. Falou sobre democracia na América Latina, crise econômica (“A Europa sabia resolver todos os problemas quando era na América Latina. Mas quando é na Europa, não sabem”) e sobre si próprio (“Não tem homem mais otimista”, disse, ao lembrar das derrotas em eleições, antes de chegar à Presidência).

Por várias vezes, Lula deixou claro o cuidado para não fazer comentários sobre questões relacionadas ao governo atual. “Eu não deveria estar comentando isso”, disse, na conversa com jornalistas sobre a mudança de comando na Vale.

Segundo um de seus assessores, “é uma atitude de recato”. “Não só em respeito a Dilma, mas pelo fato de estar buscando definir uma estratégia (para o futuro).”

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