Líder em pesquisas no Peru se afasta de Chávez e se inspira em Lula

Humala durante comício, na última segunda-feira Direito de imagem Reuters (audio)
Image caption Candidato de centro-esquerda passou a adotar tom mais conciliatório

Considerado um dos favoritos na eleição presidencial no Peru, cujo primeiro turno ocorre no próximo domingo, o nacionalista Ollanta Humala tem procurado se distanciar de um discurso mais próximo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para garantir a vitória.

Derrotado na disputa presidencial de 2006, o ex-militar Humala teria se inspirado na trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva para mudar de estratégia nesta campanha, adotando um tom mais conciliador.

Sua proximidade de Chávez em 2006 foi considerada por analistas um dos fatores determinantes da derrota para Alan García, o atual presidente.

"Há uma campanha muito forte da direita e dos meios de comunicação contra Chávez, o que acaba promovendo a rejeição da população", disse Fernando Villáran, um analista político peruano. "O distanciamento era inevitável", acrescentou.

De acordo com recentes pesquisas, Humala deve ir para o segundo turno. Ele tem entre 27% e 28% das intenções de voto, cerca de sete pontos percentuais à frente dos demais candidatos, que estão praticamente empatados na vice-liderança - o ex-presidente Alejandro Toledo, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, e o ex-ministro Pedro Pablo Kuczynski.

Petistas em campanha

Não é mera coincidência que a frase “a esperança vence o medo”, que passou a marcar os discursos de Humala, se pareça com um slogan eleitoral de Lula.

Desde janeiro, Luís Favre, ex-marido da senadora Marta Suplicy (PT), e o petista Valdemir Garreta assessoram a campanha do centro-esquerdista Humala. A presença dos assessores brasileiros foi confirmada na terça-feira pelo candidato.

"(Favre e Garreta) estão trabalhando com o comando da campanha", disse, para em seguida tentar marcar distância do PT. "Poucas vezes falei diretamente com eles, a campanha se encarrega disso, minha preocupação é viajar pelo país", acrescentou.

Para Villarán, a proximidade com o discurso de Lula foi um dos fatores que alavancaram a candidatura de Humala na reta final da campanha.

"O povo peruano tem uma boa imagem de Lula e qualquer político que se aproxime de suas políticas tende a capitalizar apoio."

Humala também apostou na mudança do visual. Trocou o vermelho das camisas, também usado por Chávez, pelo branco. Apesar de ser alvo permanente de ataques de seus adversários, Humala optou por não contra-atacar, estratégia que o favoreceu, segundo analistas.

Direito de imagem Reuters (audio)
Image caption Discurso chavista causara rejeição a Humala (à direita)

Durante a campanha, propôs um "pacto político", a manutenção da estabilidade econômica, o combate à corrupção e a distribuição de renda, dirigida fundamentalmente aos setores populares.

‘Contradições’

Já em seu programa de governo, o candidato nacionalista sobe o tom: critica duramente o modelo neoliberal e promete recuperar a soberania dos recursos naturais do país como base para o fortalecimento da economia.

Humala propõe, inclusive, mudanças na Constituição, ponto de partida que marcou o início dos governos da Venezuela, Bolívia e Equador. No documento, o candidato nacionalista promete ainda rever contratos de exploração petrolífera e de gás nas mãos de multinacionais.

É principalmente na nova roupagem dessas críticas e projetos que teria entrado o "toque brasileiro", incluindo com a elaboração da Carta ao Povo Peruano, semelhante à Carta ao Povo Brasileiro do ex-presidente Lula nas eleições de 2002. Nela, aspectos do programa que poderiam assustar os mercados foram suavizados ou suprimidos.

Na carta, Humala diz que não promoverá a reeleição presidencial, não menciona nacionalizações de empresas e tampouco critica a liberalização da economia, credora de elogios do crescimento econômico de 8,8% registrado no Peru no último ano.

Essas "contradições programáticas" têm sido utilizadas pelas demais candidaturas para criticá-lo e colocar em xeque sua legitimidade. "O que determinará o triunfo de Humala é a credibilidade", afirmou à BBC Brasil a o economista Jorge González Izquierdo.

"Ele terá de convencer ao povo que é genuína sua mudança e sua conversão ao ‘programa Lula’", disse.

Cenário no 2º turno

A resistência ao candidato nacionalista está fundamentalmente nas classes média e alta, e o setor empresarial dá sinais de não estar de todo convencido das mudanças apresentadas pelo Humala "light".

Semelhante ao que ocorreu com o ex-presidente Lula, quando Humala apareceu liderando as pesquisas de intenção de voto, a Bolsa de Valores de Lima caiu mais de 5%.

Se os resultados das urnas no domingo confirmarem as projeções, o ex-tenente coronel, de 48 anos, terá de enfrentar uma aliança da direita peruana no segundo turno, independentemente de quem seja o adversário. "Sem dúvida, haverá uma frente anti-Humala para derrotá-lo, assim como ocorreu em 2006", afirma Izquierdo.

Para os especialistas, o elemento surpresa no segundo turno, em junho, será a fidelidade, ou não, dos eleitores às determinações políticas de seus candidatos.

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