Resgate de restos do AF 447 divide familiares de vítimas na França

Memorial erguido para as vítimas do AF 447 em cemitério de Paris Direito de imagem AFP
Image caption Familiares das vítimas temem que resgate de corpos traga sofrimento

A recente descoberta de novos destroços do voo 447, da Air France, que desapareceu no Atlântico dois anos atrás, é um grande avanço na tentativa de identificar as causas da tragédia.

No entanto, para as famílias das 228 pessoas que morreram no desastre, a notícia também trouxe angústia e dúvidas.

Na semana passada, as equipes de busca encontraram, além de pedaços do avião – que fazia o trajeto Rio-Paris, em 31 de maio de 2009 –, restos mortais de algumas das vítimas.

Dentro de três semanas, começarão operações para a retirada de mais fuselagem, a uma profundidade de 4 km no Atlântico, e um número desconhecido de corpos deve ser retirado no processo.

Inevitavelmente, isso deve reavivar a dor da perda entre amigos e parentes das vítimas.

‘Dois grupos’

“Entre as famílias, há dois grupos”, explica Robert Soulas, que perdeu sua filha, Caroline, de 24 anos, e o noivo dela, Sebastien. “Há os que preferem deixar os corpos no leito oceânico. E há os que querem trazê-los para identificação e funeral. O segundo grupo é definitivamente maior.”

Mas ele faz uma ressalva: “De certa forma, é um debate inútil. O governo francês já deixou claro que os corpos serão trazidos à superfície. Então, não temos escolha”, disse à BBC.

Para Soulas, acompanhar a operação de resgate promete ser uma experiência traumática.

“Vai ser muito dolorido”, ele disse. “Faz dois anos que perdemos Caroline e Sebastien, e, com o tempo, lidamos com o ocorrido. Agora, de repente, temos que enfrentar uma nova situação em que talvez tenhamos que cuidar de um corpo, identificá-lo, preparar um enterro e assim por diante.”

Um de seus temores é que apenas um dos corpos do casal seja recuperado. “Isso seria terrível para nós, separá-los dessa maneira.”

Resgate

Nas semanas seguintes ao acidente, cerca de 50 corpos foram resgatados na superfície.

Agora, ninguém sabe ao certo quantas vítimas poderão ser encontradas, e em que estado estarão dos restos mortais.

Segundo o médico forense Michel Sapanet, a profundidade pode ter ajudado a preservar os corpos. “Grande profundidade significa baixas temperaturas e pouco oxigênio na água, que são boas condições para preservação. O tecido adiposo pode se transformar em uma espécie de cera, que reduz a velocidade da decomposição.”

No entanto, ele adverte que a operação para trazer os restos mortais à superfície vai requerer grande cuidado, por conta das mudanças de pressão na água. Superado esse desafio, a identificação dos corpos não deve ser difícil.

Agora, o Escritório de Investigações e Análises (BEA, na sigla em francês) precisa escolher qual embarcação iniciará o processo de resgate.

Os barcos equipados para tal são usados por empresas de telecomunicações para instalar cabos no oceano, e três deles se candidataram para o serviço.

A operação usará veículos controlados remotamente e equipados com câmeras, braços robóticos e garras cortantes, que partirão a fuselagem em pedaços para trazê-la à superfície.

É possível que nem todas as partes da aeronave sejam removidas – só as consideradas essenciais para as investigações da causa do acidente. Assim, é possível que alguns dos corpos não sejam trazidos.

Mas há grandes expectativas de que, desta vez, as caixas-pretas da aeronave sejam recuperadas.

As famílias receberão mais informações sobre a operação em uma reunião com representantes do BEA, em Paris, daqui a duas semanas.

Notícias relacionadas