Para ativistas, restringir acesso a armas teria amenizado tragédia

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Image caption Episódios como o de Realengo nunca haviam ocorrido no Brasil

Restringir o acesso a armas de fogo poderia ter amenizado a tragédia desta quinta-feira em uma escola no Rio de Janeiro, disseram à BBC Brasil ativistas pró-desarmamento.

Em um episódio semelhante a outros que já ocorreram no exterior, pelo menos 11 pessoas foram mortas por um atirador em uma escola municipal do bairro do Realengo, na zona oeste do Rio. Confrontado pela polícia, o autor dos disparos se matou.

Para o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a única forma de prevenir tantas mortes em um ataque como o ocorrido é evitar o acesso do público a esse tipo de armamento.

“Sem armas de fogo, um ataque como esse poderia ter alguns feridos. Com armas de fogo, vira uma tragédia gigantesca”, afirma Cano, membro do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

Antônio Rangel Bandeira, coordenador do Programa de Controle de Armas da ONG Viva Rio, tem opinião semelhante.

“Na China ou no Japão, as pessoas não têm acesso a armas de fogo, e um ataque como esse acontece com uso de faca. Faz muita diferença. Com faca, a média de mortes é de 30%. Com tiro, a média é de 80%”, afirma.

‘Desequilíbrio’

A venda de armas de fogo no Brasil, criticada por Cano e Bandeira, já foi tema de um referendo no Brasil, realizado em 23 de outubro de 2005. Na ocasião, a maioria dos que foram às urnas (63,94%) respondeu “não” à pergunta “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”.

Mesmo sem a restrição, Cano lembra que é a primeira vez que a ação de um atirador ocorre com essa dimensão e com tantas vítimas no Brasil.

Apesar de se tratar de uma novidade no país, porém, ele considera que as motivações para esse tipo de crime “são sempre as mesmas”.

“Esse tipo de ação é fruto de desequilíbrio psíquico, raiva ou desejo de vingança de alguém no local de trabalho ou de estudo”, diz. “Pode ocorrer em qualquer lugar. São motivações psíquicas individuais”, diz o sociólogo da Uerj.

No livro Armas de Fogo – Proteção Ou Risco?, Antônio Rangel Bandeira analisa ataques do gênero ocorridos nos Estados Unidos. “Geralmente são pessoas que se sentem rejeitadas pelas instituições, seja a escola ou o trabalho. Elas se vingam daqueles que estão tendo relativo sucesso”, afirma.

“O fenômeno reflete um tipo de sociedade que é intolerante e não lida com as diferenças de forma adequada.” Para ele, os Estados Unidos se enquadram nessa definição, o que explicaria a alta incidência de ataques de atiradores no país.

“Mas o Brasil está se americanizando cada vez mais, por influência principalmente dos games e da televisão”, disse Bandeira. “Incorpora coisas boas, mas as ruins também.”

De acordo com coordenador do Programa de Controle de Armas da Viva Rio, quase metade das 16 milhões de armas que circulam no Brasil atualmente são ilegais, e “90% está nas mãos da sociedade”. “O Brasil é um dos povos mais armados do mundo”, afirmou. “Muita arma, muita morte.”

Cano ressalta que discutir segurança nas escolas é um tema importante, mas não em relação ao caso de Realengo.

“Por mais que se protejam as escolas, dificilmente isso evitaria um caso com esses. Se houvesse um segurança, o atirador daria um tiro nele. A única coisa que se pode fazer é evitar que as pessoas tenham armas.”

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