FMI mantém previsão de crescimento do Brasil, mas aponta riscos

BBC
Image caption Relatório prevê alta do PIB de 4,5% e inflação de 6,3% em 2011

Em sua mais recente projeção para a economia global, divulgada nesta segunda-feira, o Fundo Monetário Internacional (FMI) manteve inalterada a previsão de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil anunciada em janeiro, de 4,5% para este ano e 4,1% para 2012, mas alertou para riscos de inflação e superaquecimento em economias emergentes.

Segundo o relatório World Economic Outlook (“Perspectivas da Economia Mundial”, em tradução livre), lançado em Washington, as economias emergentes devem tentar evitar que as condições atuais, "que parecem no auge", se transformem em superaquecimento no próximo ano.

O relatório alerta para a alta nos preços das matérias-primas e afirma que seu impacto será maior em economias emergentes nas quais alimentos e combustíveis "ocupam uma proporção maior do consumo", e onde as políticas monetárias "costumam ter menos credibilidade".

Apesar de projetar que a inflação continue "mais alta por algum tempo" em economias emergentes por conta desses fatores, o FMI não prevê um "efeito negativo profundo" no crescimento. O Fundo alerta, porém, que os riscos causados pelos "novos transtornos na oferta de petróleo" são motivo de preocupação.

O relatório prevê inflação ao consumidor no Brasil de 6,3% neste ano e 4,8% em 2012.

Nesta segunda-feira, o Boletim Focus (levantamento divulgado semanalmente pelo Banco Central do Brasil com base em consultas ao mercado) aumentou a projeção de inflação para 6,26% neste ano, bem acima do centro da meta, de 4,5%. Para 2012, a previsão de inflação se manteve em 5%.

Controle de capitais

Como já sinalizado em um relatório divulgado na semana passada, o FMI recomenda o controle de capitais "de acordo com as circunstâncias de cada país". Muitas economias emergentes, como o Brasil, vêm enfrentando forte fluxo de capital estrangeiro, atraído pelas altas taxas de juros em comparação com as de países avançados.

No Brasil, esse fluxo excessivo acaba forçando uma valorização do real frente ao dólar e reduzindo a competitividade das exportações no mercado internacional. O FMI diz que a apreciação de algumas moedas na América Latina, como a do Brasil, "aumentou as preocupações quanto à competitividade".

"Algumas economias emergentes estão suportando uma parcela desproporcional do reequilíbrio da demanda global. Isso pode se refletir em taxas de câmbio mais flexíveis", diz o documento.

O Fundo volta a alertar também para os riscos de superaquecimento, como já havia feito em relatórios anteriores. "Há sinais de potencial superaquecimento, e os fluxos de capital têm causado tensão política", diz o texto, ao citar o aumento de crédito no Brasil nos últimos anos.

Segundo o documento, em algumas economias, o rápido aumento do crédito e dos preços dos ativos "poderia alertar para uma ameaça à estabilidade financeira".

O relatório dá um recado para a China (criticada por manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada em relação ao dólar), ao afirmar que países "muitas vezes sentem a tentação de resistir à apreciação do câmbio", mas que essa apreciação é parte de "um ajuste desejável" e não deve ser evitada.

"A apreciação das moedas das economias emergentes em relação às das economias avançadas é uma chave importante para o ajuste mundial", diz o relatório.

América Latina

O relatório diz que, como a economia mundial continua se recuperando dentro do previsto, as projeções de crescimento global não mudaram desde a última edição do relatório, em janeiro deste ano, e permanecem de 4,4% neste ano e 4,5% em 2012.

No entanto, o FMI volta a ressaltar, como em anos anteriores, que a recuperação global segue desequilibrada.

Os países emergentes e em desenvolvimento devem crescer 6,5% em 2011 e em 2012. O FMI revisou levemente para cima a projeção de crescimento neste ano para a América Latina e Caribe, com aumento de 0,4 ponto percentual, passando para 4,7%. Para 2012, a projeção é de 4,2%, aumento de 0,1 ponto em relação à estimativa de janeiro.

O FMI afirma ainda que o Brasil tem "importância sistêmica" para a América Latina. "Muitos países vizinhos estão se beneficiando de seu forte crescimento. Por outro lado, uma redução abrupta da atividade econômica no Brasil afetaria de modo negativo a região."

Economias avançadas

Nas economias avançadas, o desemprego permanece elevado, "e o baixo nível de crescimento implica que se manterá assim durante muitos anos", diz o documento.

A projeção de crescimento para as economias avançadas é de 2,4% em 2011 e 2,6% em 2012. Para os Estados Unidos, a projeção de crescimento neste ano foi reduzida em 0,2 ponto percentual, para 2,8%, mas aumentou 0,2 ponto para o próximo ano, passando para 2,9%.

O FMI afirma que os planos de política econômica nos Estados Unidos passaram "da consolidação para a expansão", e que o país deve "se esforçar" para reduzir o deficit projetado para 2011.

Ao se referir aos países da zona do euro, o FMI diz que é preciso restabelecer a sustentabilidade fiscal e financeira frente a um crescimento baixo ou negativo e taxas de juros elevadas.

O documento diz ainda que recomendações feitas anteriormente ainda não foram atendidas, entre elas a necessidade de maior clareza sobre a exposição dos balanços dos bancos e planos de recapitalização prontos para o caso de necessidade, além de uma consolidação fiscal "inteligente", que não seja muito rápida nem muito lenta, e a reformulação da regulação e supervisão do sistema financeiro.

"A reforma do sistema financeiro internacional segue sendo decididamente um trabalho não concluído", diz o relatório.

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