Governo sírio diz que protestos são 'insurreição armada'

Manifestantes protestam em Homs, na Síria (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Manifestantes ocuparam a praça central de Homs

O governo da Síria afirmou nesta terça-feira que protestos na terceira maior cidade do país, Homs, e na cidade de Baniyas, no norte, são uma "insurreição armada".

A afirmação foi feita à medida que milhares de manifestantes ocuparam o centro de Homs na segunda-feira à noite, afirmando que ficariam no local até que suas exigências políticas fossem atendidas, pedindo a queda do presidente Bashar al-Assad. Há relatos de que forças de segurança dispararam contra manifestantes na cidade.

Ativistas de defesa dos direitos humanos afirmam que 200 pessoas foram mortas na Síria em semanas de protesto. Na segunda-feira, foram realizados os funerais de oito manifestantes mortos durante choques entre oposicionistas e forças do governo, na véspera.

Ocupação de praça

Após os funerais, milhares de pessoas teriam se dirigido para a praça central de Homs, a 165 km ao norte da capital, Damasco.

Ativistas dizem que foram criados postos de checagem para garantir que apenas civis desarmados tenham acesso ao local.

Segundo um dos oposicionistas, voluntários estão levando comida e água para os manifestantes.

Um ativista de direitos humanos disse à agência Reuters que as forças de segurança ordenaram que os manifestantes deixassem a praça e, em seguida, abriram fogo e lançaram gás lacrimogêneo contra a multidão. Ao menos uma pessoa teria ficado ferida.

Dois moradores de Homs também disseram ter ouvido tiros perto da praça.

Abu Moussa

Os protestos contra o governo sírio se intensificaram em Homs depois que as autoridades entregaram o corpo do líder tribal Abu Moussa, no sábado. Ele teria sido morto enquanto estava preso.

Walid Saffour, presidente do Comitê dos Direitos Humanos da Síria, organização baseada em Londres, disse à BBC que acredita que Abu Moussa tenha sido torturado.

"A barba dele estava queimada e ele morreu sob tortura em uma das agências de segurança de Homs, provavelmente em uma agência de segurança militar", disse.

Segundo o ativista, depois que o corpo de Abu Moussa foi levado para o sepultamento no cemitério da cidade, "muitas pessoas foram para as ruas de Homs, gritando e pedindo por liberdade e até por uma mudança no sistema".

Saffour afirma que o governo deve ser responsabilizado pelas mortes dos cidadãos sírios.

"É um genocídio e um massacre contra a humanidade", disse.

Reformas

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Image caption O presidente sírio enfrenta o maior desafio de seu governo com os protestos nas ruas

Os protestos configuram o maior desafio ao governo do presidente Bashar al-Assad desde que ele sucedeu seu pai no poder, há 11 anos.

No sábado, Assad prometeu reformas no país como forma de acalmar os manifestantes e afirmou que deve revogar nos próximos dias o estado de emergência que vigora na Síria há quase 50 anos.

Parte dos manifestantes diz que as concessões feitas pelo governo até agora são insuficientes.

Já a agência oficial de notícias síria Sana chegou a noticiar que “a calma prevalece” na maior parte do país, refletindo a suposta "satisfação popular" com as reformas de Assad.

A agência relatou, no entanto, que três oficiais do Exército, incluindo um general, com seus dois filhos e um sobrinho, foram vítimas de uma emboscada. Eles teriam sido mortos no domingo por "gangues criminosas" e teriam sido mutilados.

'Salafitas'

Em uma declaração, o Ministério do Interior sírio disse: "O curso de eventos anteriores (...) revelou que eles são parte de uma insurreição orquestrada por grupos armados pertencentes a organizações salafistas, especialmente em Homs e Banias (outra cidade que teve protestos anti-governo no domingo)". O Ministério disse ainda que as ações não serão toleradas.

Analistas dizem que a atribuição dos protestos a salafitas, um grupo islâmico sunita visto como extremista, é uma ameaça aos protestos pacíficos.

Os Estados Unidos também se mostraram preocupados com a reposta síria às manifestações.

Segundo o porta-voz do Departamento de Estado americano Mark Toner, o presidente Assad está enfrentando "um empurrão de seu próprio povo para se mover para uma direção mais democrática" e disse que o governo "precisa lidar com as legítimas aspirações de seu povo".

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