Análise: Equilíbrio entre forças desiguais provoca impasse em Misrata

Rebeldes usam espelho para ver avanço de forças do governo (Getty Images) Direito de imagem GETTY IMAGES
Image caption Rebeldes usam espelho para ver avanço de forças do governo

Enquanto partes da região costeira ao norte da Líbia vem mudando de mãos praticamente a cada dia, o conflito na cidade de Misrata se transformou em um impasse militar que parece não ter saída.

Semanas de bombardeio por parte de forças leais ao coronel Muammar Khadafi, o líder da Líbia, não conseguiram subjugar os rebeldes que ainda controlam a cidade.

Isso pode ser parcialmente explicado pelo tamanho de Misrata, a terceira maior cidade da Líbia.

É o único reduto significativo mantido pelos rebeldes que lutam contra Khadafi no oeste do país. E é importante estrategicamente porque a cidade conta com um porto de águas profundas. Por isso, os rebeldes vêm travando combates tão duros para mantê-la.

Eles contam com um grande número de recrutas em potencial. Muitos entre os 300 mil moradores locais parecem ter radicalizado a sua oposição ao coronel Khadafi durante a campanha militar que os líderes ocidentais têm comparado a um "cerco medieval".

O porto oferece uma importante garantia para as forças anti-Khadafi. A região portuária foi pesadamente bombardeada, mas continua a receber suprimentos de comida, medicina e, supostamente armas, enquanto serve também de ponto de retirada para os feridos e para os trabalhadores estrangeiros que se encontram em Misrata.

Sabedoria local

E os combatentes contrários ao regime têm o que se poderia chamar de sabedoria local, uma das razões pelas quais as forças do coronel Khadafi têm hesitado ou sido incapazes de se lançar em batalhas abertas.

''Os rebeldes conhecem as entradas e as saídas da cidade muito bem, sabem onde se abrigar. (As forças de Khadafi) sabem que se eles ficarem presos dentro da cidade seriam cercados e totalmente eliminados. Por isso, eles têm apenas alguns franco-atiradores e são protegidos por tanques'', disse à BBC um médico que mora na cidade.

O número de franco-atiradores leais ao regime - que têm se posicionado em topos de edifícios - teria caído depois que rebeldes cortaram rotas de suprimento para eles, impondo bloqueios nas estradas com caminhões cheios de areia.

As forças anti-Khadafi contam também ter evacuado um mercado de legumes que estava sendo usado pelas tropas leais ao regime como garagem e prisão.

Um jornalista da BBC que visitou Misrata na semana passada foi informado de que as forças de Khadafi estavam entrincheiradas nas duas extremidades da cidade, a não mais que um quilômetro do centro.

Essas tropas são mais bem equipadas que seus oponentes, com acesso a armamentos pesados, algum treinamento militar básico e nenhum dos problemas de suprimento que as forças leais ao regime enfrentam mais ao leste.

Mas o profissionalismo dos combatentes ligados ao governo vem sendo questionado e seu número é limitado.

O líder líbio manteve o seu Exército intencionalmente enfraquecido - devido a temores de que os militares poderiam tentar depô-lo - e a campanha para conter os insurgentes tem sido comandada por seus filhos, com um total de homens que oscila entre 10 mil e 15 mil.

Eles se dividem entre Trípoli, Misrata e regiões ao leste. Mas o coronel Khadafi estaria relutante em permitir que mesmo essas tropas de choque possam operar em números de mais de cem, temendo que elas possam desertar.

As forças pró-Khadafi em Misrata tem tentado conciliar bombardeios de longa distância e posicionar atiradores ao longo da rua Trípoli, a linha de frente da cidade.

Os ataques não resultaram em avanços militares, mas puseram fim à normalidade do dia a dia da cidade provocando escassez de artigos diversos e baixas entre civis.

Registros hospitalares mostram que mais de 300 pessoas foram mortas, e muitas outras ficaram feridas. Os relatos feitos pelos rebeldes de que mais de mil pessoas foram mortas não têm como ser comprovado.

Armamentos pesados

Entre os armamentos usados pelos correligionários do regime estão foguetes Grad, de fabricação russa, e bombas de fragmentação espanholas, que lançam fragmentos de metal em alta velocidade em uma vasta área e que foram banidos em boa parte do mundo.

"Eu creio que eles estão bombardeando aleatoriamente e considero isso terror contra a população. Eles não têm alvos militares. Bombardeiam qualquer lugar para assustar os moradores'', afirmou Paolo Grosso, um anestesista que trabalha em uma clínica mantida pela da agência assistencialista Emergency em Misrata.

Uma mulher que deixou Misrata afirmou que a rua Trípoli se tornou uma ''zona de guerra'' e acusou as tropas de Khadafi de ter cometido abusos.

''Havia corpos na sarjeta e no mercado de legumes onde fazia minhas compras. A milícia estuprou mulheres, assassinou homens e crianças'', disse ela à agência de serviços humanitários Irin.

Moussa Ibrahim, um porta-voz do governo, disse à BBCque o governo estava tentando proteger os civis dos rebeldes, e que os médicos que atuam na cidade estavam tentando passar uma imagem negativa dos acontecimentos em Misrata para estimular uma eventual intervenção da Otan.

Sem contar com mais ajuda da Otan, os rebeldes de Misrata - que seriam mais organizados do que os combatentes contrários ao regime mais ao leste - parecem pouco propensos a tirar maior proveito da situação favorável.

Eles afirmam que a resistência é um movimento improvisado de civis movidos pela revolta contra o coronel Khadafi e que eles possuem apenas armas suficientes para defender a cidade.

Ataques áreos por parte de países ocidentais têm sido relatados nas extremidades de Misrata, mas oficiais das forças militares do Ocidente que vêm empreendendo as campanhas de bombardeios dizem não querer correr o risco de dirigir os ataques aéreos contra posições no centro da cidade, temendo atingir civis, apesar das contínuas reivindicações por parte dos rebeldes solicitando ataques mais pesados por parte da Otan.

''Este é um governo e um regime que optou por usar telhados de hospitais e de mesquistas e de estacionar seus tanques ao lado de escolas e de esconder atrás de homens e de mulheres, de modo a assegurar que nós não iremos atacá-los'', afirmou ao serviço mundial da BBC o general Charles Bouchard, comandante das operações da Otan na Líbia.

"Portanto, quando se fala em ação, é preciso levar em conta esses fatores."

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