Perfil: História do Iêmen moderno se confunde com a de Ali Abdullah Saleh

Reuters Direito de imagem BBC World Service
Image caption Saleh tentava se distanciar da repressão recente aos oposicionistas

Ali Abdullah Saleh pode se tornar o terceiro líder árabe deposto pelos recentes levantes populares se cumprir a decisão de deixar o poder do Iêmen, anunciada neste sábado.

Durante os dois meses de protestos ele procurou, nem sempre com sucesso, se distanciar da violência que marcou a repressão aos manifestantes.

Calcula-se que mais de 100 pessoas tenham sido mortas enquanto Saleh, há 32 anos no poder, tentava transmitir uma imagem de estadista moderado.

Críticos o acusam de ser um político sagaz que usaria qualquer brecha legal para permanecer no poder.

"Ele sempre governou criando confusão, crises e por vezes medo entre os que poderiam desafiar", escreveu a especialista em Iêmen Sarah Phillips em artigo publicado no jornal britânico Guardian.

Governo

Saleh governava desde 1978 um dos países mais complicados da região, uma nação pobre, vulnerável à militância, posicionada ente o autoritarismo de Estados produtores de petróleo no Golfo Pérsico e o caos da Somália, ainda se recuperando das divisões vindas da época da Guerra fria.

Às vésperas de completar 70 anos de idade, ele comparou a tarefa de dirigir o país a “dançar sobre a cabeça de cobras”.

A moderna República do Iêmen é profundamente ligada a Saleh, eleito seu primeiro presidente após a unificação em 1990.

Nascido na capital Sanaa, ele recebeu pouca educação formal. Militar de carreira, foi ferido em combate durante a guerra civil da década de 1970 entre republicanos e monarquistas apoiados pela Arábia Saudita.

Participando de um golpe, quatro anos depois, ele foi nomeado presidente pelo Parlamento em 78.

Nos 12 anos seguintes, ocorreu o difícil processo de unificação com o Iêmen do Sul.

No exterior, ele tinha a difícil missão de manter alianças com vizinhos árabes e o Ocidente.

Seu combate à rede extremista Al-Qaeda, que ao final da década de 1990 viu no Iêmen uma possível base, comparável com o Afeganistão, lhe rendeu a amizade dos Estados Unidos.

Caso contrário, o governo americano poderia ter mantido distância do líder que ficou ao lado de Saddam Hussein quando este invadiu o Kuwait anos antes.

2011

Saleh costumava justificar a necessidade de sua permanência no poder com o fantasma da volta da guerra civil.

No dia anterior ao anúncio de que deixaria o cargo, disse em discurso que "eles (a oposição) querem levar a região para a guerra civil e rejeitamos isso".

O momento da virada para muitos foram os protestos de 18 de março em Sanaa, quando 45 pessoas foram mortas por franco atiradores. Poucos acreditaram quando ele disse que as forças de segurança não estariam envolvidas.

Saleh foi então abandonado por ministros e embaixadores em protesto e as multidões nas ruas aumentaram nos protestos que se seguiram.

Com a indignação agora somada à raiva frente a corrupção e a pobreza que ele não combateu por décadas, sua "dança sobre cobras" parecia com os dias contados.

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