Oriente médio

Análise: Crise na Síria tem implicações profundas para Oriente Médio

Manifestantes atiram pedras contra tanques em Daara

Há décadas a Síria tem sido um dos países mais estáveis do Oriente Médio.

Em fevereiro de 1982, um levante de muçulmanos sunitas na cidade de Hama foi violentamente reprimido pelo pai do atual presidente, Hafez al-Assad. Há variações nas estimativas, mas acredita-se que milhares teriam sido mortos.

A atual onda de protestos contra o governo do presidente Bashar al-Assad começou em março e se alastrou por várias cidades do país.

Desta vez, o número de mortos estaria na casa das centenas e muitos mais estariam feridos - é difícil ter confirmação dessas estimativas -, mas o regime continua mostrando a mesma tendência de reprimir oponentes com violência.

A Síria é um mosaico complexo de comunidades e talvez o presidente Assad acredite que possa usar essas divisões para se manter no poder.

Sua família e aliados têm o controle sobre as forças de segurança e o Exército, portanto, há poucas chances de uma repetição do modelo egípcio, onde os militares se voltaram contra o regime.

Os acontecimentos no país estão sendo observados com atenção e inquietude, tanto no Oriente Médio quanto no resto do mundo.

A situação da Síria é de grande relevância para a região. Em comparação com ela, a Líbia, por exemplo, se torna um país periférico.

Os sírios fazem parte de uma aliança que reúne o Irã, os militantes do Hezbollah no Líbano, o Hamas na Faixa de Gaza e outros grupos radicais palestinos opostos à paz com Israel.

Se a Síria mergulhar no caos, esta aliança pode se enfraquecer, mas o impacto mais grave poderá ser sentido no vizinho Líbano.

Uma verdadeira colcha de retalhos que agrega comunidades diversas, o Líbano, ao contrário da Síria, tem uma história marcado por instabilidade política.

Israel Observa

Uma Síria forte representa um elemento estabilizador no Líbano. O caos em um poderia levar ao caos no outro.

Israel também observa com preocupação os acontecimentos no país vizinho. A Síria tem sido um inimigo previsível. Até mesmo um governo sírio enfraquecido poderia trazer outros tipos de problema.

Há tempos, um grupo de militares e diplomatas israelenses vinha defendendo a ideia de que se fizesse um acordo de paz com a Síria, antes de qualquer acordo com os palestinos.

O grupo ressaltava a importância da estabilidade do regime em Damasco, argumentando que os líderes da Síria eram pessoas com quem era possível negociar. Também haveria maior probabilidade de que continuassem no poder para honrar acordos no futuro, argumentavam os militares e diplomatas.

Agora, em meio à incerteza que aflige tantos dos países árabes vizinhos de Israel, o lobby da "Síria primeiro" no país deve estar seriamente enfraquecido.

A impressão que se tem é de que a conjuntura geopolítica da região está sendo alterada sob o impacto da "Primavera Árabe".

Ainda é cedo, mas divisões na região, que um dia foram vantajosas para Israel - como, por exemplo, as divisões entre o Irã xiita e importantes Estados sunitas pró-ocidente, como o Egito - podem estar ficando menos pronunciadas.

Preocupação dos EUA

Washington também acompanha de perto as mudanças.O governo do presidente Obama vem, há tempos, considerando a possibilidade de tirar o líder sírio do isolamento. O objetivo de uma iniciativa como essa seria trazer Assad para o time dos ocidentais e incentivá-lo a se afastar do Irã.

A Europa parece ter saído na frente, com a França na dianteira. Mas um novo embaixador americano chegou a Damasco em janeiro, o primeiro a ser enviado ao país desde 2005.

Seu antecessor foi retirado do posto após o assassinato do primeiro-ministro libanês Rafik Hariri. Washington suspeitava de que a Síria estaria envolvida no assassinato.

Os Estados Unidos condenaram a violência do governo sírio contra seus próprios cidadãos, mas parecem ter procurado, sem sucesso, formas eficientes de influenciar o governo de Assad.

O mapa político do Oriente Médio está mudando. Novas forças foram liberadas. Mas também há pressões na direção oposta. Por exemplo, por parte da Arábia Saudita, que parece determinada a cortar pela raiz os brotos da "Primavera Árabe" que ousam desabrochar na sua vizinhança.

Não está claro em que direção caminha o Oriente Médio. O otimismo gerado pelos acontecimentos na Tunísia e Egito está diminuindo.

Há tantas chances de que surjam novos tipos de autoritarismo como de que floresçam democracias.

O caso da Líbia representa um teste. Mas para a região como um todo, a Síria pode ser um exemplo muito mais importante.

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