Patriota diz que Conselho de Segurança correrá riscos se não fizer mudanças

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Image caption Insulza (centro) e Patriota discutiram sobre a possibilidade de o Brasil ter um assento do Conselho de Segurança

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que o Conselho de Segurança da ONU corre o risco de incorrer em uma "falha sistêmica", caso não leve adiante uma reforma para incorporar novos membros permanentes que reflitam a atual geopolítica mundial.

"Falhando em reformar o Conselho de Segurança, caminhamos para um sistema internacional onde grupos de países ou coalizões encarregam a si próprios de promover suas visões de paz, segurança e civilidade, desconsiderando as leis internacionais", afirmou o chanceler na abertura do Fórum Econômico Mundial da América Latina, ocorrida no Rio nesta quinta-feira.

"Isso aponta para a necessidade da reforma do conselho. Não é questão de ser aspiração individual (do país). O Brasil está preocupado em criar um sistema que funcione, que reflete as realidades de hoje e previna esse tipo de falha sistêmica."

Patriota disse que seria um "exercício de futurologia" saber se o pleito do Brasil irá adiante, mas considerou que, se nos anos 90 a ambição era descartada por muitos, o tema ganhou importância na pauta mundial.

“Hoje é difícil encontrar um diplomata em qualquer parte do mundo que diga que é uma questão irrelevante. Acredito que esse sentimento predomina na comunidade internacional. Vocês viram na visita do presidente Obama, no comunicado conjunto da presidente Dilma na China."

‘Incômodo’

O chanceler abriu a sexta edição do fórum para a América Latina ao lado do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, de Enrique Iglesias, da Secretaria Geral Iberoamericana, e de Sir Martin Sorrell, chefe executivo da WPP e co-presidente desta edição do Fórum.

Sorrell manifestou incômodo com o "domínio do Brasil na América Latina", argumentando que brasileiros não pensam em seus vizinhos, mas se concentram no próprio país.

"É preciso encarar o Brasil como uma região, globalmente. Não é só o Brasil", disse.

O comentário levantou a questão sobre se o país representaria a região ao entrar no Conselho de Segurança da ONU.

À imprensa, Patriota disse que a participação no conselho é a título individual. "As Nações Unidas são as NAÇÕES unidas, não são as REGIÕES unidas necessariamente”, disse.

“Na medida em que possa haver coordenação, haverá. Nós estamos criando todos os mecanismos possíveis e um ambiente de cooperação que permita que, diante de uma reforma, nós teríamos condições de fazer um trabalho que reflita também as preocupações regionais."

União

Insulza, porém, considerou que o simples fato de haver um país latino-americano no Conselho de Segurança fortaleceria a "união e a capacidade de ação na região". "Não é que o Brasil vá representar a América Latina, mas o fato de que a América Latina estaria representada. Isso seria muito favorável para a região", disse, afirmando ser a favor da entrada de outros países como membros permanentes, e que não vê os pleitos do Brasil e da Índia como candidaturas excludentes.

Insulza falou também sobre o que considera os três maiores desafios para a América Latina na próxima década: o crescimento sustentado, a desigualdade e o crime organizado. Ele disse que é essencial fazer a transição das economias para além das commodities para não repetir o passado, lembrando que na virada do século 19 para 20 as exportações eram fartas e os países enriqueceram. "Só que gastamos tudo e nada sobrou, ou praticamente nada. A grande questão é como vamos fazer agora."

Dos três desafios, Insulza destacou a criminalidade, onde, a seu ver, não houve progresso. "O crime organizado é um problema para todos, para alguns mais do que outros, e não se restringe às drogas. Há o tráfico humano, a lavagem de dinheiro, a prostituição. Isso está crescendo cada vez mais e é um desafio muito sério para a região", alertou.

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