América Latina não pode ser ingênua na relação com China, diz analista

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Image caption Para Cárdenas, há sinais de que China quer influir na política latino-americana

A América Latina não deve ser ingênua nas relações com a China e precisa ter cuidado para "não ir de uma potência para a outra", trocando a dependência dos Estados Unidos pela do gigante asiático, diz o colombiano Maurício Cárdenas, diretor do setor latino-americano do instituto de pesquisas Brookings Institution, em Washington.

Na avaliação de Cárdenas, a América Latina tem sido ingênua em relação à China. Não exigiu o suficiente que o país abrisse seu mercado nem colocou em dúvida a duração do crescimento chinês. "Fomos muito ingênuos em pensar que a China vai continuar crescendo na taxa de 10% ao ano e que a demanda por commodities vai continuar neste ritmo para sempre", afirmou Cárdenas à BBC Brasil no Fórum Econômico Mundial da América Latina, no Rio. De acordo com Cárdenas, há diversos sinais vindos da China de que a atual taxa de crescimento não se sustentará, pois haveria excesso de capacidade em setores da economia, vilas com muitos prédios e poucos habitantes, fábricas operando abaixo da capacidade. "Diversos exemplos indicam que há excesso de investimento na China. E sempre que vimos isso na história, houve um ajuste custoso depois, seja porque empréstimos não foram pagos, bancos enfrentam dificuldades ou ninguém quer investir mais no local."

Para Stephen Olson, diretor do instituto Asia Economic Strategy Institute, o Brasil também deve agir para que a China desvalorize sua moeda, pois, segundo ele, a atual cotação do yuan prejudica indústrias brasileiras.

Mas ele diz que pressionar o país pode ser contraproducente, porque os chineses poderão achar que adotar a medida simbolizará fraqueza e submissão a vontades externas. Em vez disso, sugere uma “diplomacia silenciosa” que faça a China entender que valorizar o yuan será vantajoso para o país.

Para Cárdenas, a América Latina precisa estar pronta para o momento em que o "motor do mundo desacelerar". Isso equivale a aumentar a poupança ("Não falamos mais em poupança na América Latina, falamos só em investimetno, empréstimo, expansão de crédito") e fortalecer os mercados internos para criar uma base forte para o crescimento econômico. "O problema é que expandimos o mercado interno, mas muito dessa demanda está sendo suprida por manufaturados chineses. Pense nos eletrodomésticos, nos automóveis. Isso é o caso menos do Brasil, mas é fato em países como Peru e Chile, onde a maioria desses produtos é importada da Ásia." A expansão do mercado interno deveria permitir o aumento da produção doméstica de manufaturados e incentivar a exportação de produtos além das commodities, ressalta. Segundo o analista, em muitas maneiras a relação com a China se parece com uma relação "Norte-Sul". "Eles fazem os manufaturados, nós fazemos as commodities, nós aceitamos o capital", afirma o colombiano.

Olson, do Asia Economic Strategy Institute, diz que a China é muito direta em perseguir seus interesses estratégicos e comerciais.

“Governantes brasileiros devem discernir com cuidado quais os interesses estratégicos chineses numa questão particular, e então definir suas estratégias políticas de forma correspondente”, diz Olson à BBC Brasil.

China versus EUA A expansão da presença chinesa na América Latina, segundo Cárdenas, "é uma ameaça maior do que os Estados Unidos percebem e maior do que as autoridades chinesas admitem". "Dizem que não há interesse político na América Latina, que são só negócios. Mas já há sinais de que querem exercer uma influência política sobre a região. É uma tendência e temos que estar alertas. Acho que não queremos ir de uma potência para a outra." A China é vista como uma ameaça às fortes relações dos Estados Unidos com os países da América Latina. Para Cárdenas, porém, esse momento de transição deve ser usado de maneira "mais inteligente", de modo a elevar a importância global da região e reduzir as dependências. Ele considera o país asiático o principal risco global a ser levado em consideração hoje pela América Latina. O segundo são os próprios Estados Unidos, onde o aumento do deficit fiscal demandará ajustes que, a seu ver, terão efeitos negativos para os países da região. "Os Estados Unidos são hoje uma sociedade muito dividida, e na minha visão estão se tornando muito fechados. Eles percebem que sua posição no mundo está mudando, e a reação instintiva de muitas pessoas, e de muitos políticos, é construir barreiras. E barreiras nos Estados Unidos serão prejudiciais ao México, à América Central e a muitos países da região", diz.

*Colaborou Silvia Salek, da BBC Brasil em Londres

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