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Morte de Bin Laden não significa fim da Al-Qaeda, diz especialista

Bin Laden na área de Jalalabad, Afeganistão, em 1989 (Foto: AFP)

Bin Laden na área de Jalalabad, Afeganistão, em 1989

A morte de Osama Bin Laden é um duro golpe para a organização que ele liderava, a Al-Qaeda, mas a rede ainda possui uma grande capacidade de realizar ataques por conta de sua natureza descentralizada.

A operação realizada por soldados americanos e paquistaneses na cidade de Abbotabad, nos arredores da capital paquistanesa, Islamabad, eliminou o maior símbolo da Al-Qaeda e o extremista mais procurado do mundo há dez anos.

Entretanto, como têm apontado diversos analistas, há tempos Osama Bin Laden não é mais o comandante operacional da Al-Qaeda, responsável direto pelo planejamento dos ataques. Isto cabe ao que será agora alçado ao posto de primeiro da rede, Ayman al-Zawahiri.

Expulso do Afeganistão e restringido por ataques de aviões americanos não-tripulados nas áreas tribais do Afeganistão, Bin Laden já estava em uma posição de desvantagem.

Mais importante, há anos a Al-Qaeda abandonou um modelo hierárquico altamente centralizado – no qual os líderes supervisionavam diretamente todo o recrutamento, o treinamento e a distribuição das missões – para se transformar em algo muito mais amorfo e impalpável.

Hoje a filosofia da Al-Qaeda é "um homem, uma bomba". A rede virou uma espécie de "franquia" que também atua através de grupos aliados ou inspirados por sua filosofia.

A rede já não precisa de um segundo 11 de Setembro para deixar sua marca. Uma única bomba disposta em qualquer lugar do mundo por um suicida dedicado, desde que inspirado por Bin Laden e seus seguidores, é suficiente para indicar que a rede permanece viva e ativa.

Portanto, o maior perigo da Al-Qaeda hoje não é a organização em si, mas a influência dessas "franquias" que atuam sob seu espectro.

Capilaridade

Simpatizantes da Al-Qaeda podem receber treinamento com aliados da Al-Qaeda, como o Talebã paquistanês ou o grupo afegão liderado pelo ex-líder militar Jalaluddin Haqqani.

Há anos a Al-Qaeda abandonou um modelo hierárquico altamente centralizado – no qual os líderes supervisionavam diretamente todo o recrutamento, o treinamento e a distribuição das missões – para se transformar em algo muito mais amorfo e impalpável.

Ahmed Rashid

No Paquistão, o grupo facilitador tem sido o Lashkar-e-Taiba, uma organização militar que atua no lado indiano da região fronteiriça da Caxemira. Depois de 11 de setembro de 2001, o grupo ajudou a esconder muitos líderes do alto escalão da Al-Qaeda, possivelmente até Bin Laden.

Mas as autoridades paquistanesas relutam em combater o Lashkar-e-Taiba porque o grupo mantém proximidade com os serviços de inteligência paquistaneses.

Além disso, o Paquistão também tem deixado à solta grupos como os liderados por Haqqani, porque atuam no Afeganistão.

Na Europa, antes de 11 de Setembro não havia células da Al-Qaeda, exceto por uma na cidade alemã de Hamburgo, que esteve envolvida nos ataques às Torres Gêmeas.

Hoje, porém, cada um dos países europeus tem uma célula ligada à rede. Centenas de muçulmanos com passaportes europeus são treinados no Paquistão e reenviados de volta a solo europeu.

Na semana passada, três cidadãos marroquinos foram presos na Alemanha sob acusação de planejar atentados a bomba em espaços públicos.

As autoridades admitiram que mais de 200 cidadãos alemães foram treinados nas áreas tribais do Paquistão e que muitos destes voltaram para a Alemanha.

Células "adormecidas" em situação semelhante se espalham por Grã-Bretanha, Escandinávia, França, Espanha e Itália.

Neste momento, o temor de um atentado suicida em estações de trens e metrôs nos Estados Unidos e na Europa é particularmente alto, assim como em alvos militares e embaixadas ocidentais no Oriente Médio, que já são um alvo freqüente do extremismo.

Também é preocupante a possibilidade de ataques aleatórios, por exemplo, um militante que instale uma bomba em um supermercado.

Alguns ataques podem ser realizados por jihadistas de longa data infiltrados nas sociedades ocidentais, segundo planos que podem estar sendo aperfeiçoados há anos.

Nos Estados Unidos, as autoridades conseguiram impedir no último minuto diversos ataques desta natureza, realizados por indivíduos treinados nas áreas tribais do Paquistão.

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Risco asiático

Afeganistão, Paquistão e Índia também estão particularmente sob risco de ataques organizados.

No Afeganistão, há o risco representado por grupos como o de Haqqani.

No Paquistão, os últimos acontecimentos mostraram que a Al-Qaeda está bem estabelecida, apesar da negativa de várias autoridades paquistanesas, agora de forma comprovadamente infundada.

Em memória a Bin Laden, a Al-Qaeda estará determinada a lançar uma campanha de ataques no Paquistão junto com seus grupos aliados. Isto elevará as tensões no país, que já passa por dificuldades econômicas e sofre com cortes no fornecimento de energia elétrica.

Além disto, grupos aliados da rede podem avaliar que este é o momento mais apropriado para traçar uma divisão mais profunda entre a Índia e o Paquistão lançando um novo ataque em território indiano semelhante ao de Mumbai, em novembro de 2008.

Tal ataque poderia tirar o ímpeto da busca por membros da Al-Qaeda no Paquistão.

Por fim, as revoltas no mundo árabe representam um desafio e uma oportunidade para a Al-Qaeda no Oriente Médio.

Por um lado, diversos analistas viram as revoltas do mundo árabe como um enfraquecimento da Al-Qaeda, que passaram a rede no objetivo de depor regimes na região, tornando-a mais irrelevante na cena política.

Por outro lado, as oportunidades estão abertas na medida em que a Al-Qaeda permanece influenciar e ganhar prestígio entre uma nova geração de líderes políticos que emergiram na Tunísia, no Egito, na Síria e nos Estados do Golfo Pérsico.

Esta tarefa será muito mais difícil agora, com a morte do maior símbolo da rede.

A organização extremista não desaparecerá da noite para o dia. É o futuro das "franquias" da Al-Qaeda que determinará se as idéias de Osama Bin Laden sobreviverão à sua morte.

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