Análise: Morte de Bin Laden pode facilitar retirada americana do Afeganistão

Soldado afegão faz patrulha em Cabul. Direito de imagem AP
Image caption Para especialista, morte de Bin Laden pode ter impacto na guerra do Afeganistão

A morte de Osama Bin Laden é um triunfo para os Estados Unidos, que pode reduzir consideravelmente a ameaça terrorista ao país e ao Ocidente.

Isso tem pouca relação com o fim da liderança que Bin Laden exercia na Al-Qaeda original, uma vez que esta (liderança) já vinha sendo simbólica havia muito tempo.

E isso também não está relacionado a uma redução no poderio da própria Al-Qaeda, já que a força do grupo foi bastante reduzida desde o 11 de setembro - a rede agora é menos ameaçadora do que uma série de grupos aliados e afiliados no Paquistão, no Oriente Médio e em outras partes do mundo.

Na verdade, a importância desse triunfo para os Estados Unidos está no impacto potencial que isso terá sobre a guerra no Afeganistão.

Resta saber se o governo Obama saberá fazer uso desse triunfo para conseguir declarar vitória no Afeganistão e deixar o país.

Se conseguir, o fim do que é visto no mundo muçulmano - especialmente no Paquistão - como a ocupação ilegal de um país islâmico deve diminuir o apelo da militância no Paquistão e na diáspora paquistanesa, e reduzir o recrutamento terrorista.

Raiva adicional

A julgar por minhas entrevistas com paquistaneses comuns nos anos recentes, o prestígio da chamada jihad defensiva do Talebã contra a invasão e a ocupação americanas no Afeganistão tem sido um dos principais estímulos da propagação do fervor militante no Paquistão e entre os paquistaneses na Grã-Bretanha e em outros lugares.

Um fator adicional na desestabilização do Paquistão tem sido a pressão dos Estados Unidos sobre o país, relacionada com a guerra do Afeganistão - incluindo o uso de ataques de aviões militares não tripulados e a crescente atividade de forças de elite americanas no Paquistão.

O tamanho imenso da população e do Exército paquistanês fazem da situação no país a principal questão na luta contra o terrorismo.

Quanto à ameaça terrorista direta da antiga Al-Qaeda, nos últimos anos eles tem funcionado menos como um grupo terrorista de fato e mais como provedor de ajuda especializada para outros grupos.

Direito de imagem AFP
Image caption A situação do Paquistão é crucial na luta contra o terrorismo, segundo analista

Operacionalmente, estes outros grupos não serão afetados pela morte de Bin Laden. Por um lado, eles não estavam sob seu controle. Por outro, eles já estavam dedicados a atacar o Ocidente, e qualquer sentimento de raiva causado pela morte de Bin Laden será somente um fator a mais em meio a uma abundância de razões reais ou percebidas que seus partidários tem para o ataque.

É quase possível dizer que, há algum tempo, a maior importância do "núcleo" original da Al-Qaeda está na mente coletiva dos Estados Unidos. É lá onde pode estar o verdadeiro significado da morte de Bin Laden.

Falando com o inimigo

A morte do homem visto como o principal responsável pelo assassinato de milhares de americanos no 11 de setembro tem sido vista nos Estados Unidos como uma grande vitória para a América e especialmente para a administração Obama, refletindo a perseverança, talento e coragem da inteligência e das forças especiais americanas - e a coragem moral do presidente de ordenar uma operação que, caso tivesse dado errado, poderia ter se tornado um fiasco.

Porque foi vista como uma grande vitória, a morte de Bin Laden deve ajudar Barack Obama a se reeleger no próximo ano, e também pode tornar mais fácil para o seu governo conseguir um acordo de paz com o Talebã no Afeganistão e retirar os soldados americanos do país, sem que isso seja visto pelo público como uma derrota humilhante.

Os possíveis contornos de um acordo de paz no Afeganistão já estão aparentes. Eles incluem:

  • A exclusão de todas as forças armadas não-afegãs do país - tanto terroristas internacionais quanto tropas americanas;
  • Um governo em Cabul com alguns membros do Talebã;
  • Controle limitado do Talebã sobre certas áreas, e uma repressão do Talebã à produção de heroína nestas áreas.

O governo Obama se posicionou bem para explorar a morte de Bin Laden desta maneira se escolher fazê-lo, enfatizando repetidamente que a guerra no Afeganistão não é contra o Talebã como tal, mas somente contra a proteção que conferiam à Al-Qaeda.

Esta abordagem, no entanto, vai de encontro a uma década de retratação do Talebã como inimigos que precisam ser destruídos - e também à relutância do Exército americano em lidar com o inimigo.

A morte de Bin Laden deve reduzir bastante a dificuldade de dialogar com o Talebã afegão e diminuir a habilidade da oposição republicana nos Estados Unidos de tratar isso como "fraqueza" ou "traição" da parte do governo Obama.

Os republicanos até podem fazer uso desses argumentos, e irão convencer seus partidários - mas eles serão muito menos convincentes para o grupo intermediário de indecisos na opinião pública americana, que decidirá as eleições presidenciais do próximo ano.

Se os republicanos seguirem essa linha, a morte de Bin Laden certamente terá dado ao governo Obama uma resposta de peso.