Morte de Bin Laden 'exorciza fantasma' que assombrou EUA por dez anos

Americanos comemoram morte de Bin Laden em frente à Casa Branca (Foto: BBC) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Para analista, reação 'visceral' e 'eufórica' dos americanos é sintomática

A morte de Osama Bin Laden gerou demonstrações de júbilo por todos os Estados Unidos. Tanta emoção indica que não se tratava apenas do homem por trás dos ataques de 11 de setembro, mas de uma figura tenebrosa que por dez anos assombrou a psique nacional americana.

Seu rosto se tornou um dos mais conhecidos do mundo. Para bilhões de pessoas, Osama Bin Laden era uma cara mais familiar que o vizinho, escreveu certa vez o sociólogo britânico Anthony Giddens.

Ao autorizar os ataques em Nova York e Washington, que mataram cerca de 3 mil pessoas há dez anos, Bin Laden imediatamente se tornou o homem mais procurado – e um dos mais vilipendiados – do mundo.

Sua capacidade de evasão, apesar dos esforços americanos para capturá-lo, e os vídeos sinistros liberados durante o período em que esteve escondido, também alimentaram sua fama.

Mortos os homens que realizaram o sequestro dos aviões, os ataques passaram a ser sinônimos do homem que os concebeu e que apareceu em filmagens vangloriando-se do número de mortos.

À medida que os atentados se sucediam em Bali, Madri e Londres, espalhava-se ao redor do mundo o medo de que Bin Laden pudesse atacar em qualquer lugar e a qualquer hora, apesar da pouca evidência de que ele estivesse por trás daquelas atrocidades.

<b>'Bicho-papão'</b>

Mas a notícia de sua morte ecoou mais fortemente nos Estados Unidos, a superpotência que ele fez tremer. Havia um sentimento de vingança e alívio nas multidões que se reuniram espontaneamente comemorar o fato, tarde da noite, não apenas em Nova York e Washington D.C., mas também em Miami, Kentucky, Illinois, Kansas, Texas e por todo o resto do país.

"Para os americanos, Bin Laden se tornou a personificação do bicho-papão, aquele monstro mítico que é a fonte do medo", avaliou o intelectual muçulmano Hussein Rashid, que promove a integração entre as diversas comunidades e credos que convivem nos Estados Unidos.

"Sua morte produz um incrível sentimento de catarse e aqui em Nova York há um gigantesco sentimento de alívio, um sentimento de que 'pegamos o monstro'. É assim que muitos americanos vão se sentir por algum tempo."

Para Rashid, a euforia americana com a morte de Bin Laden não é diminuída pelo fato de o líder já não ser o comandante operacional da Al-Qaeda, ou "a cabeça da serpente", como descreve o acadêmico.

Os vídeos do extremista sopraram os ventos do medo ao empregar uma linguagem e uma simbologia que alienou os americanos, avalia Rashid, como certa vez em que comparou o ex-presidente George W. Bush a Hulagu Khan, o líder mongol que conquistou um império islâmico.

"Era uma linguagem à qual os americanos não tinham acesso. Muitas vezes, precisei explicar às pessoas por que Khan foi tão importante para os muçulmanos."

Para o colunista da revista <i>New Yorker</i> Adam Gopnick, a morte do homem mais procurado do mundo há uma década tem um significado muito importante para a nova geração.

"Meu filho de 16 anos me ligou na noite passada em estado de euforia porque este foi a sombra sob a qual ele cresceu, esse espectro temeroso do 11 de setembro."

Muitos dos que foram para as ruas celebrar no domingo à noite eram jovens. O estudante Rashawn Davis, calouro da Universidade de Maryland, explicou que se sentia "em um mundo mais calmo agora que o homem se foi".

Mas seria um erro achar que Bin Laden era apenas um bicho-papão, diz Gopnick. Era uma pessoa em carne e osso, dotada de um fanatismo magnético que o elevava acima do patamar dos usuais ditadores.

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Image caption Notícia veio em 'boa hora', dez anos após atentado em NY, diz analista

"Este tipo de figura carismática é diferente, portanto carrega mais significado para as pessoas. Quando o mal é movido pela ganância e o desejo de poder, é o tipo de coisa que vemos o tempo todo. Mas quando é movido pela ideologia e o fanatismo religioso, tem mais poder."

<b>Injeção de patriotismo</b>

Para Gopnick, a duração da caçada a Bin Laden e o número de pessoas que acreditavam que ele já estivesse morto complementaram o mito.

"O que estamos tentando entender é por que as reações (à sua morte) foram tão viscerais, e todas essas razões contribuem. Mas a razão principal é que ele era o malvado que fez uma malvadeza que traumatizou muito, muito, este país. E ele tem um enorme significado tanto real quando simbólico", disse o colunista da <i>New Yorker</i>.

Agora que ele está morto, Gopnick diz esperar que "isto exorcize o espectro do medo, que era o seu grande aliado, muito mais do que a sua capacidade de infligir dano".

Os gritos de "U-S-A!" ouvidos na Lafayette Square, em frente à Casa Branca, indicam que a morte de Bin Laden injetou nos americanos uma nova dose de patriotismo.

Robin Niblet, diretor do centro de estudos sobre política internacional Chatham House, em Londres, diz que a morte do líder da Al-Qaeda deve revigorar o orgulho americano, ainda que não possa aliviar todos os efeitos concretos da crise econômica.

"Se o décimo aniversário do 11 de Setembro tivesse passado sem que Bin Laden tivesse sido apanhado, teria sido algo que permaneceria preso na garganta dos americanos", afirmou Niblet.

"Isto (a morte de Bin Laden) reafirma o senso do poderio americano, mas de certa forma isto tem menos a ver com a sua posição internacional e mais com dormir tranquilamente à noite."

O especialista crê que isto trará a satisfatória sensação de vitória que até agora lhes foi negada na guerra do Afeganistão.

À moda do Velho Oeste, observa, os americanos juntaram seus homens, saíram à caça e abateram o inimigo.