Morte de Bin Laden reacende debate sobre uso de tortura

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Image caption Imprensa repercute morte no Paquistão

A morte de Osama Bin Laden reacendeu o debate sobre o uso de tortura no interrogatório de suspeitos de terrorismo nas mãos dos Estados Unidos.

Em uma entrevista à rede de TV NBC, o diretor da Central de Inteligência Americana (CIA), Leon Panetta, admitiu que as autoridades americanas fizeram uso das polêmicas técnicas de interrogatório para obter informações que levassem ao paradeiro do cabeça da Al-Qaeda.

Indagado essas técnicas incluíam o chamado “afogamento simulado”, o diretor da CIA respondeu: "Correto".

No afogamento simulado, amarra-se um pedaço de pano ou plástico na boca do prisioneiro e derrama-se água sobre seu rosto. Isto o leva a inalar água, causando a sensação de afogamento.

Entre outras técnicas conduzidas nas prisões secretas da CIA, incluindo em centros de detenção como Guantánamo, estão manter os prisioneiros acorrentados em posições desconfortáveis por um longo período de tempo e privá-los de sono por até 180 horas.

As práticas foram introduzidas no início da chamada Guerra contra o Terror, durante o governo Bush.

Após vários anos de intensa polêmica dentro e fora dos EUA, caíram em desuso em 2004 e foram expressamente proibidas pelo governo democrata do presidente Obama, que chegou ao poder em 2009.

Se as informações colhidas durante os interrogatórios foram cruciais para chegar a Bin Laden, é uma questão que ainda permanece aberta.

Panetta disse que as pistas que levaram a Bin Laden não vieram apenas deste tipo de interrogatório, mas de "muitas fontes".

Vários oficiais que participaram das sessões afirmam que as técnicas aportaram pouca informação sobre o paradeiro do chefe da Al-Qaeda.

<b>Crédito</b>

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Image caption Manifestantes protestam contra o assassinato de Bin Laden em Quetta, no Paquistão

Ainda assim, membros do Partido Republicano tentaram tirar proveito das polêmicas técnicas, em meio às manifestações de apoio ao presidente Obama e as comemorações dos americanos pela morte de Bin Laden.

O presidente do Comitê de Segurança Interna da Câmara dos Representantes, o republicano Peter King, disse que os afogamentos deram resultados quando foram usados para interrogar Khalid Sheik Mohammed, o chefe dos atentados de 11 de setembro, hoje preso em Guantánamo.

Segundo King, Mohammed entregou o nome do mensageiro de Bin Laden quando foi submetido ao afogamento simulado.

“Conversei com pessoas muito próximas da situação que dizem que a informação inicial implicando diretamente o mensageiro veio de Khalid Sheik Mohammed”, afirmou King.

O prisioneiro foi submetido à técnica 183 vezes antes de 2005, segundo reconheceu o próprio governo americano.

Porém, outras fontes ouvidas pelo jornal <i>The New York Times</i> apontaram que dois prisioneiros submetidos a tratamentos brutais – um deles sendo o próprio Mohammed – repetidamente deram pistas erradas sobre a identidade do mensageiro aos interrogadores.

Além de King, figuras importantes da era Bush, como o ex-vice-presidente Dick Cheney, a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice e o ex-subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz, reivindicaram crédito pela dureza adotada pelo governo contra suspeitos nas prisões americanas.

“Isto não teria sido possível se tivéssemos liberado terroristas em vez de mantê-los pela informação que detinham, uma das quais pode não parecer importante, como o pseudônimo de um motorista, até que se descubra que é uma pessoa crítica”, disse Wolfowitz.

<b>Causa e consequência</b>

Para a organização de direitos humanos Anistia Internacional, que critica a abordagem usada nos interrogatórios, não existe prova suficiente de que as técnicas brutais aplicadas contra os prisioneiros levaram diretamente a Bin Laden.

“Não existe prova irrefutável de uma relação direta entre os afogamentos simulados e a descoberta deste suspeito (o mensageiro)”, disse a especialista em terrorismo da organização, Geneve Mantri.

“Esta operação foi um processo lento e gradual de juntar fragmentos de informação. Se o governo anterior tinha essa informação, claramente não soube o que fazer com ela.”

Em meio à polêmica, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, rejeitou que a informação obtida em Guantánamo tenha tido alguma importância na localização de Bin Laden.

“É simplesmente ingénuo sugerir que um pedaço de informação que pode ou não ter sido recolhida há oito anos de alguma maneira esteja diretamente relacionada ao sucesso da missão do domingo. Simplesmente não é o caso”, disse Carney.

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