América Latina

Santos reconhece conflito armado na Colômbia e se afasta de Uribe

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos/Reuters

Presidente estaria se afastando do seu antecessor, Álvaro Uribe

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, admitiu nesta semana a existência de um “conflito armado interno” no país, fato apontado como mais um exemplo do distanciamento do atual mandatário de seu antecessor e padrinho político, Álvaro Uribe.

Na última quarta-feira, Santos defendeu que a expressão “conflito armado interno” seja colocada na Lei de Vítimas, em análise pelo Senado. O reconhecimento provocou uma reação imediata de Uribe que, em oito anos de poder, nunca admitiu este fato.

O projeto de lei, idealizado no governo de Uribe, prevê a reparação de danos morais e materiais às vítimas de violência na Colômbia. Um de seus pontos principais é a restituição de terras que caíram ilegalmente nas mãos de guerrilheiros ou paramilitares.

Uribe criticou a mudança defendida por Santos tanto em seu perfil no serviço de microblogging Twitter quanto em entrevista a uma rádio colombiana. Para ele, “reconhecer o conflito armado é uma ameaça à democracia”.

O ex-presidente, que sempre se referiu aos grupos armados como “terroristas” e “organizações criminais”, disse que a medida poderia legitimar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e criar um estado de “guerra ou belicoso”.

Essa divergência em relação à terminologia, no entanto, reflete um distanciamento ideológico que, segundo analistas, sempre existiu.

Entenda a Lei de Vítimas da Colômbia

Idealizado ainda no governo de Álvaro Uribe, o projeto de lei prevê a reparação de danos morais e materiais às vítimas de violência na Colômbia, de acordo com a definição de Violação Internacional de Direitos Humanos.

A restituição de terras é um ponto fundamental do projeto, já que cerca de 7 milhões de hectares estão ilegalmente nas mãos de guerrilheiros ou grupos paramilitares.

Especialistas consideram importante deixar claro que as vitimas são pessoas afetadas por conflitos armados, para impedir que vítimas de crimes comuns (roubos e outros) se também beneficiem da lei.

Acredita-se que 10% da população colombiana possa ser enquadrada como vítima por ter sofrido algum tipo de violência. Com a lei, o Estado terá que se responsabilizar pela reparação.

A reparação pode ser simbólica, como a criação de datas comemorativas, ou material (assistência médica, educação e direito à restituição da terra). A lei está em fase final de análise no Senado.

Embora Santos tenha atuado como ministro da Defesa durante o governo Uribe e tenha sido eleito endossado pela popularidade de seu antecessor, os dois têm raízes políticas bem distintas.

“Uribe é conservador em suas opiniões e na maneira de governar. É ligado à classe média rural, e seu pressuposto básico é segurança. Já Santos é um liberal que vem de uma família empresarial tradicional, sempre ligada a ideia de modernizar a Colômbia”, diz o professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Pontifícia Javeriana de Colômbia, Eduardo Pastrana.

Tomada de posição

Para Pastrana, reconhecer o conflito armado é mais uma tomada de posição de Santos rumo à consolidação de seu projeto de um governo liberal. O cientista político avalia que o presidente quer imprimir sua própria marca, assim como fez Uribe.

“Santos é um político racional e pragmático de tendências modernizadoras. Ele acredita que a Colômbia precisa encerrar este ciclo de violência, e que isso depende de reparação das vítimas. Além disso, ele aposta no diálogo porque, neste momento, esse é um caminho possível para a desmobilização paramilitar”, afirma.

Em contrapartida, Uribe viveu uma fase bem distinta, onde a tentativa de diálogo com as Farc havia fracassado e a alternativa palpável era a guerra.

“Uribe é passional e um gerenciador de crises. Quando ele começou a governar, a Colômbia precisava de seu perfil, duro e centralizador”, diz o professor.

“O diálogo havia fracassado, e a guerrilha estava quase que incontrolável. Ele obteve êxitos importantes, especialmente contra as Farc.”

No campo das relações internacionais, Santos também se aproximou dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa. A relação da Colômbia com estes dois países ficou estremecida durante o governo Uribe.

Base governista

Perto de completar um ano de mandato, Santos também se distanciou de Uribe na hora de escolher seus auxiliares de governo.

Parte de sua equipe é composta por políticos e executivos reconhecidamente críticos da política uribista, como a atual chanceler, Maria Ângela Holguín, e o ministro da Agricultura, Juan Camilo Restrepo.

Com o apoio do vice-presidente Angelino Gárzon, historicamente ligado aos movimentos sindicais, Santos tem transitado bem entre conservadores e liberais.

“Ele quer criar um grande bloco de centro-esquerda, mais uma vez em uma corrente ideológica oposta à de Uribe”, afirma Pastrana.

Com atitudes e posições divergentes, analistas políticos apostam que o distanciamento entre Santos e Uribe deve ser mantido. Alguns acreditam que a “era Uribe” pode estar se encerrando – mesmo que o atual presidente tenha sido eleito com cerca de 70% de votos, creditados em grande parte à alta aprovação popular de ex-presidente.

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