Alegação de cumplicidade com Al-Qaeda é 'absurda', diz premiê paquistanês

BBC
Image caption Gilani diz que governo não convidou a Al-Qaeda para dentro do Paquistão

O primeiro-ministro do Paquistão, Yousef Raza Gilani, afirmou nesta segunda-feira que são "absurdas" as alegações de cumplicidade das autoridades paquistanesas com a rede extremista Al-Qaeda e de incompetência do governo para localizar o líder da organização, Osama Bin Laden.

Bin Laden foi morto no último dia 1º, na cidade paquistanesa de Abbottabad durante operação realizada por uma unidade de elite das Forças Armadas americanas. O líder da Al-Qaeda se encontrava em uma mansão localizada a poucos metros da sede da Academia Militar paquistanesa.

Discursando no Parlamento paquistanês, Gilani disse que a missão do governo é eliminar o terrorismo. "Nós não convidamos a Al-Qaeda a entrar no Paquistão", afirmou.

O primeiro-ministro disse ainda que ações unilaterais como a realizada pelos Estados Unidos na semana passada trazem o risco de graves consequências e que o Paquistão reserva a si o direito de proteger a sua soberania.

‘Bem nacional’

De acordo com o premiê, o serviço de inteligência paquistanês (ISI), que tem uma longa história de contatos com grupos militantes e tem sido acusado de colaborar com a Al-Qaeda, é um "bem nacional" e tem a total confiança do governo do Paquistão.

Gilani confirmou também que uma investigação sobre a presença de Bin Laden no Paquistão será realizada. “Nós estamos determinados a ir até o fim (para descobrir) como, quando e por que ocorreu a presença de Osama Bin Laden em Abottabad”, disse o premiê.

Segundo ele, as falhas de informações a respeito da presença do líder da Al-Qaeda no Paquistão foram de todas as agências de inteligência do mundo, e jogar a culpa uns nos outros não serve a nenhum propósito.

O primeiro-ministro disse ainda que a aliança entre Paquistão e Estados Unidos é importante, sendo de interesse dos dois países mantê-la – embora tenha sugerido que os americanos ajudaram a criar a Al-Qaeda ao, supostamente, armar rebeldes durante a invasão soviética do Afeganistão, nos anos 1980.

Quinze minutos

Em entrevista à rede de TV árabe Al-Arabiya, o ministro do Interior paquistanês, Rehman Malik, afirmou que o governo só foi avisado da operação militar americana que matou Bin Laden 15 minutos depois que ela foi iniciada.

Malik disse ainda que "não faz sentido" a alegação de que o governo paquistanês deu abrigo ao líder da Al-Qaeda.

"Como nós poderíamos fazer isso com uma pessoa que acreditamos estar envolvida com o assassinato da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto?”, afirmou o ministro.

Esta foi a primeira vez em que um integrante do governo do país admitiu que a Al-Qaeda estaria envolvida no atentado que matuo Bhutto, em 2007.

Impopularidade

O Paquistão está sendo cada vez mais pressionado pelos Estados Unidos para que explique como foi possível que o líder da Al-Qaeda vivesse por tanto tempo - cinco anos - a poucos metros da sede da Academia Militar do país.

No domingo, o presidente americano, Barack Obama, pediu que o governo paquistanês investigasse a rede de apoio que ajudava Osama Bin Laden e se alguma autoridade do país sabia do paradeiro do líder da rede extremista.

Leia mais na BBC Brasil: EUA pedem que Paquistão investigue rede de apoio de Bin Laden

A correspondente da BBC no Paquistão Jill McGivering afirma que, apesar da promessa do governo de Islamabad em investigar o caso, os Estados Unidos nutrem suspeitas sobre o rigor deste inquérito.

Segundo o repórter da BBC em Abbottabad Aleem Maqbool, muitos paquistaneses acham que, dado o tempo em que o líder da Al-Qaeda viveu perto do centro de formação militar e dado as declarações que as autoridades vinham dando nos últimos anos sobre o paradeiro de Bin Laden - de que ele não estaria no Paquistão ou de que estaria morto -, há um sentimento generalizado de que o governo paquistanês ou é muito incompetente ou tem enganado a população.

Mais cedo, uma multidão realizou protestos nas áreas tribais do Paquistão contra a morte do líder da Al-Qaeda.

Cerca de 500 manifestantes realizaram uma passeata na cidade de Wana, na região do Waziristão do Norte (noroeste do país), carregando cartazes que atacavam os Estados Unidos e o governo paquistanês.

Notícias relacionadas