Franceses decidem restringir resgate de corpos do AF 447

Caixa preta do voo AF 447 selada para o transporte até a França Direito de imagem AP
Image caption Caixa-preta será examinada na França até o fim da semana

Os corpos das vítimas do voo AF 447 da Air France que estiverem muito deteriorados não serão resgatados, informaram os juízes franceses responsáveis pelas investigações do acidente em uma carta enviada nesta terça-feira aos familiares dos mortos na catástrofe, ocorrida em 2009.

"Para preservar a dignidade e o respeito das vítimas e dos que choram por elas, tomamos a decisão de não resgatar os restos mortais que sofreram grandes alterações, considerado o fato de que o içamento à superfície é obrigatoriamente um fator suplementar de degração", diz a carta, assinada pelos juízes Sylvie Zimmermann e Yan Daurelle.

"Vocês devem saber que os restos mortais no fundo marinho estão inevitavelmente em um estado degradado após um choque particularmente violento, o tempo transcorrido e em razão do meio em que se encontram."

"Levando-se isso em conta, nós só resgataremos os corpos que pudermos entregar decentemente às famílias, e isso sob a condição de que eles possam ser identificados", afirmam os juízes.

Os corpos das vítimas do voo AF 447 da Air France, que caiu no Atlântico após decolar do Rio com destino a Paris, estão submersos a 3,9 mil metros de profundidade há quase dois anos.

Os juízes acrescentam que os corpos que não puderem ser identificados por meio de testes de DNA, “delicados e complicados”, não serão resgatados.

“Na hipótese em que uma identificação se revele impossível, acreditamos que, em respeito aos desaparecidos e a vocês mesmos, eles devam seguir repousando em paz em sua última moradia”, diz a carta.

Críticas

A iniciativa despertou críticas entre representantes dos familiares das vítimas.

No Brasil, o presidente da Associação de Familiares de Vítimas do Voo 447, Nelson Faria Marinho, diz que a decisão dos juízes franceses foi “precipitada” e que ela não cabe apenas à França.

“São 32 nacionalidades envolvidas. Só porque a investigação é deles, não quer dizer que eles sejam os donos da verdade. Eles têm que dar satisfação aos familiares”, diz Marinho. “Nós queremos os corpos, queremos poder encerrar a vida através de um enterro. Foi um conforto a mais quando soubemos que encontraram os corpos atados aos cintos de segurança. Agora vão dizer que não podem tirar? Acho que eles estão querendo fazer economia. Quanto mais tempo dura essa operação, mais cara ela fica.”

Maarten Van Sluys, diretor-executivo da associação AFVV 447, disse à BBC Brasil disse ter ficado “surpreso e indignado” com as informações “sobre a divisão entre os corpos mais e os outros menos deteriorados”.

“Isso cria uma ansiedade adicional entre todos por não saberem em qual grupo seus entes queridos estão incluídos”, afirma Sluys.

“Para as famílias, ter um local digno para sepultar seus entes sempre será melhor do que não ter nada. Isso condiz com nossas tradições”, diz ele, que acha procedente, no entanto, “que um corpo que supostamente não possa ser identificado permaneça onde repousa”.

“Quais os meios utilizados para esta seleção? Fotos, vídeos, posição na aeronave, estarem atrelados aos cintos ou não?”, indaga o diretor da AFVV 447.

DNA

Amostras das duas vítimas resgatadas na semana passada foram coletadas para realizar testes de DNA com o objetivo de tentar identificar os corpos.

Especialistas franceses ligados ao resgate dos corpos ouvidos pela BBC Brasil afirmam que pode haver dificuldades para extrair o material genético de ossos que ficaram imersos por um longo período e que a identificação, nesses casos, pode não ser possível.

Os juízes informam que quatro novos especialistas do Instituto de Pesquisas Criminais da Polícia Militar francesa vão ser enviados ao navio encarregado da operação de resgate, antes mesmo que os resultados dos testes de DNA, “relativamente lentos”, sejam conhecidos.

“Se os testes forem positivos, eles estarão imediatamente prontos para iniciar as operações (de resgate)”, diz a carta dos juízes franceses.

Os dois juízes afirmam ainda que “é impossível tomar uma decisão com a qual todas as famílias, francesas e estrangeiras, concordariam, já que entre os membros de uma mesma associação as opiniões divergem”.

As duas caixas-pretas do voo devem chegar à França até esta quinta-feira.

Marinho, da associação das vítimas no Rio de Janeiro, afirma também que conversou nesta terça-feira com o Secretário Nacional de Articulação Social, Paulo Roberto Martins Maldos, para cobrar um posicionamento do Brasil e solicitar a presença de observadores internacionais durante a análise das caixas-pretas. A associação reivindicava que a leitura fosse feita em um país neutro, como os Estados Unidos.

Colaborou Julia Dias Carneiro, da BBC Brasil no Rio de Janeiro

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