Líbia foi alvo de primeiro bombardeio aéreo da história

Monoplano projetado pelo austríaco Igo Etrich, do qual Guido Gavotti lançou suas bombas (fotos cortesia de Paolo de Vecchi) Direito de imagem Fotos cortesia de Paolo de Vecchi
Image caption Gavotti não sabia propósito exato de sua missão

A Itália recentemente disse estar pronta para se juntar às operações de ataques aéreos da Otan contra alvos na Líbia – um anúncio que trouxe à tona uma sensação de repetição da história.

Foi na Líbia, há exatamente um século, que um jovem piloto italiano realizou o primeiro ataque aéreo já feito.

Durante combates em novembro de 1911, entre a Itália e forças leais ao Império Otomano turco, o tenente Giulio Gavotti escreveu em uma carta a seu pai: "Hoje decidi tentar lançar bombas a partir do avião’’.

"É a primeira vez que nós iremos tentar isso. Se formos bem-sucedidos, ficarei satisfeito em ser a primeira pessoa a fazê-lo."

Pouco depois, o tenente Gavotti se pendurava do lado de fora de sua frágil aeronave e arremessava uma bomba contra tropas em um oásis no deserto abaixo.

Guerra aérea

E assim a guerra chegou aos ares, com a primeira bomba sendo lançada sobre um deserto na Líbia.

As cartas foram usadas para ilustrar uma edição do programa radiofônico do Serviço Mundial da BBC, Witness - que se vale de testemunhos pessoais para reconstituir eventos-chave na história mundial.

A BBC obteve cópias das cartas que o tenente escreveu na Líbia.

Na época, a Itália era ainda um país novo, que havia sido unificado havia menos de 50 anos.

O país estava ávido por conquistas e enxergou em partes do Império Otomano em declínio regiões prontas para serem tomadas – entre elas, territórios na Líbia.

Com a eclosão da guerra, o tenente Gavotti recebeu ordens de colocar vários aviões de carga a bordo de um navio e partir para o Norte da África.

Missão secreta

Ele imaginava que teria apenas de realizar missões de reconhecimento por lá, mas depois percebeu que mais seria exigido dele.

“Hoje, duas caixas de bombas chegaram’’, ele escreveu em uma carta a seu pai, enviada de Nápoles: "A expectativa é que nós as lancemos a partir de nossos aviões."

"É muito estranho que nada disso nos tenha sido dito antes e que não tenhamos recebido nenhuma instrução. Portanto, estamos trazendo as bombas a bordo com a maior precaução.’’

Direito de imagem Fotos cortesia de Paolo de Vecchi
Image caption Bombas lançadas por Gavotti não teriam feito baixas

"Será muito interessante experimentá-las nos turcos."

Ao trazer aeronaves para a frente de batalha, os italianos estavam fazendo algo que não tinha sido feito antes.

Isso foi apenas oito anos após os Irmãos Wright, dos Estados Unidos, considerados por muitos os pais da aviação, terem realizado um pioneiro voo curto. Voar ainda estava em sua infância.

"Assim que o tempo estiver bom, eu irei para o acampamento e levarei meu avião", escreveu Gavotti.

Bomba no bolso

"Perto do assento, eu mantinha uma pequena caixa de couro preenchida com estofamento. Eu coloquei as bombas ali dentro com muito cuidado. Elas eram bombas pequenas, que pesavam um quilo e meio cada uma. Eu as coloquei na caixa e outra no bolso de minha jaqueta.’’

Gavotti decolou e partiu para Ain Zara, que atualmente é apenas uma cidade ao leste de Trípoli, na época era descrita como sendo um pequeno oásis.

Lá, a expectativa era de que ele encontrasse combatentes árabes e tropas turcas que haviam se aliado na luta contra a invasão italiana.

Em sua carta, que foi disponibilizada para a BBC por seu neto, Paolo de Vecchi, o tenente escreve: "Depois de um tempo, eu percebi a forma escura do oásis. Com uma mão, segurei o volante, com a outra, tirei uma das bombas e a coloquei no meu colo."

"Estou pronto. O oásis fica a cerca de um quilômetro de distância. Vejo as tendas árabes muito bem. Carrego a bomba com a mão direita, retiro a etiqueta de segurança e jogo a bomba para fora, evitando a asa."

"Posso vê-la caindo por alguns segundos e em seguida ela desaparece. Depois de um pouco de tempo, posso ver uma pequena nuvem escura no meio do acampamento. "

Direito de imagem Fotos cortesia de Paolo de Vecchi
Image caption Monoplano projetado pelo austríaco Igo Etrich, do qual Guido Gavotti lançou suas bombas

"Eu atingi o alvo!"

"Lancei outras duas bombas com menos sucesso. Ainda tenho uma que eu decidi lançar mais tarde sobre um oásis próximo a Trípoli.’’

"Retornei realmente satisfeito com o resultado. Fui direto me reportar para o general Caneva. Todo mundo está satisfeito."

De volta à Itália, a imprensa ufanista relatou o feito com grande estardalhaço.

Com sua pequena bomba, o tenente Gavotti pode ter imposto poucas baixas, se é que impôs alguma, em sua incursão solitária contra um oásis empoeirado líbio.

Mas ele havia mostrado pela primeira vez que era possível realizar ataques a partir de uma aeronave.

Mais tarde, bombardeios começariam a entrar na história pelo alto número de civis que mataram - como Guernica, Dresden e Hiroshima –, causando estragos que o jovem piloto italiano mal poderia ter imaginado.