A super-chatice das super-injunções

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Às vezes dá uma coisa na Grã-Bretanha e ela fica chata de morrer. Uma pequena lista (que eles, sem assunto, tanto curtem) resume o que digo: eleições para votos alternativos, especulações sobre o local da lua de mel do príncipe e sua senhora, ponderações sobre o traseiro da irmã da duquesa de Cambridge, teorias conspiratórias sobre a execução de Osama Bin Laden, David e Victoria Beckham, novo casamento de Paul McCartney com uma mulher chamada Nancy (tomara que ela leve todo o resto da dinheirama que a Heather Mills não conseguiu abocanhar) e assim por diante. Infelizmente.

Mas o que mais ocupou espaço no também tedioso mundo das comunicações foi a questão dos ou das super injunctions, ou seja, das super-injunções ou super-mandados de injunção.

Não sei se temos o equivalente, mas o que há, por estas bandas, é o seguinte: uma pessoa pode tacar um mandado judicial, ou injunção, contra um determinado órgão de imprensa que pretenda publicar qualquer coisa de desabonadora aos olhos da injuntiva figura. Como ele ou ela sabem que o jornal vai publicar a matéria é um assunto chato, tedioso e enfadonho.

Há algum tempo, Max Mosley, figura ligada ao insuportável “esporte” de Fórmula Um, levou a chatíssima questão das super-injunções à maçante Comissão Europeia de Direitos Humanos, sediada no igualmente enfadonho país auto-cognominado Luxemburgo.

Mosley queria forçar os órgãos de comunicação a avisarem uma pessoa que sua privacidade ia ser invadida. Como se um malandro mandasse um cartãozinho alertando sua vítima que ela estava na bica de cair num conto do vigário. Não é assim que o mundo funciona, “seu” Max. O senhor andou vendo muito carrinho correndo depressa demais.

Na terça, 10 de maio, a Comissão, num tedioso comunicado, decidiu que não, não tinha nada demais os jornais publicarem fofocas e futricos, ou meras especulações, conforme se diz nas enfadonhas rodas ligadas à jurisprudência luxemburguiana, e, por extensão (chato, né?), europeia.

E a super-injunção? O super-mandado de injunção? Oriundo do planeta Krypton, a figura jurídica permitia àqueles que se sentissem à beira da tijolada de um escândalo amordaçarem os jornais (em geral tabloides que vivem à custa de escândalos, 95% deles de enfadonha natureza sexual) de forma a não poderem sequer mencionar que uma mordaça lhes cobria a boca, ou a tinta de impressão, venenosa. Eles chamam de gagging, botar uma mordaça em alguém, algo, algum assunto.

Lembro-me de um Brasil onde também já foi costume o fenômeno de não mencionar um fato relevante, no caso que a publicação sob leitura estava também sob censura. Mas isso foi na ditadura e ninguém sabe mais se lembra dessas chatices.

Por aqui, e agora, quem mandava o advogado com uma super-injunção na mão dar às novas para os – generalizemos – tabloides eram, e são, esse fenômeno de nossos dias, as “celebridades”. E nunca vi aspas mais merecidas em minha vida.

As “celebridades” ficavam inquietas e sentiam sua privacidade invadida, como se tivessem algo mais a oferecer ao distinto público, igualmente, feito elas, chato, tedioso, enfadonho, maçante e de gosto dúbio. A única coisa que um Max Mosley pode oferecer, além de barulho e derrapagem nas curvas, é sua chata, tediosa, enfadonha e maçante vida sexual, igualmente de gosto dúbio.

Idem todas as “celebridades”, suas aspas como super-chifres, que super-injungiram (chato mas o verbo “injungir” existe. Que remédio?) os tabloides que, ao menos, dão, ou davam, um pouco de molho à vida chata, tediosa, enfadonha e maçante que vem soprando neste início de verão nestas ilhas como um vento siroco.

A Lei da Difamação continua valendo. Não há comissão, em Luxemburgo, Andorra ou Dores do Indaiá, que a expulse do gramado ou da pista de Fórmula Um. O que acontece é que Max Mosley e suas peraltices sexuais (chatas, tediosas etc.) passaram de chatos de galocha a “super-chatos”.

E todos aqueles que torciam a favor da persistência do super-mandado de injunção ficaram com cara de bobos e de bobas, uma vez que alguém teve de ir ter com todas essas “celebridades” e explicar que existe um negócio muito bacaninha, que chamam de cibernética, onde inclusive pode ser encontrado o Google e o Twitter.

Portanto, para maiores, se não todos os detalhes, sobre esse pessoal e suas sagradas “privacidades” basta googlar ou twittar. Os dois miraculosos engenhos informáticos vão e dão o serviço completo, mais que qualquer jornal ou blog sobre os pecadilhos ou pecadões da aspeada turma toda. Tremenda curtição. A única até agora neste início de verão.