Globalavrão

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Palavrão. Três sílabas. Globalização é pior. Cinco sílabas repelentes. Quando o documentário ou o texto tem “globalização” no título, passo direto. Burrice. Um dos melhores livros dos últimos tempos sobre nossa intimidade universal, ou globalização, é O Mundo é Plano, de Thomas Friedman. A palavra globalização não aparece no título.

Nem no livro de Nayan Chanda. Em inglês o título é Bound Together, em português, Sem Fronteiras, da editora Record. A palavra abominável, globalização, aparece pequena no longo subtítulo: "os comerciantes, missionários, aventureiros e soldados que moldaram a globalização”.

Nayan Chanda estudou história na Sorbonne, mas ficou fascinado pelo presente e foi parar no Vietnã durante a guerra, na década de 70, como correspondente da Far Eastern Economic Review. Ele vê o mundo pela história e pela economia, mas naquele dia estava com os pés em cima da mesa, olhando pela janela, entediado, quando viu um tanque virar a esquina e passar na frente do escritório dele, no Reunification Boulevard, em Saigon. Na rabeira do tanque, a bandeira era do Vietnã do Norte. Saiu correndo com sua câmera.

O tanque entrou pelo portão do palácio, os soldados se escafederam sem nenhuma reação. Chanda foi o primeiro correspondente, um dos poucos que ficaram, a informar ao mundo, que Saigon e o Vietnã do Sul já eram. Os comunistas ganharam e o país voltou a ser Vietnã.

Nayan Chanda ganhou cobiçados prêmios do jornalismo americano, entre eles o Shorenstein Award, das universidades Stanford e Harvard, por coberturas no mundo asiático, mas as fronteiras de Nayan não se limitam à Ásia. Hoje ele dirige o centro de publicações sobre estudos de globalização - título gigante - e é o editor do YaleGlobal Online.

Nayan circula no mundo acadêmico, mas não perdeu a precisão do repórter.

"Quando foi que 'globalização' virou um palavrão?", perguntei.

"Foi em 1999, na reunião da OMC, Organização Mundial do Comércio, em Seattle. Grande protesto, quebra-quebra, cacetadas, prisões e 'globalização' virou palavra maldita", disse ele.

Globalização virou sinônimo de abuso das multinacionais, desemprego e capitalismo selvagem, mas no livro de Nayan você vai apreciar mais de 30 mil anos de histórias que nos aproximaram uns dos outros.

O título do livro em português, Sem Fronteira, não tem a mesma força do inglês, diz Nayan. "Bound Together nos amarra, Sem Fronteiras nos deixa soltos. Estamos amarrados."

O livro pega porque Nayan é um inspirado contador de histórias. Ele parte da árvore para a floresta, do micro para o macro. Em resumo, quatro protagonistas, comerciantes, missionários, aventureiros e militares amarraram o mundo como está hoje. O chá e o café são alguns dos protagonistas essenciais no capítulo do comércio, cada um com uma história mais preciosa que o outro.

No capítulo sobre missionários, Nayan salta para o século 20 e conta como, durante um jantar de despedida do embaixador brasileiro da ONU, numa churrascaria em Nova York, diplomatas conseguiram romper um impasse e aprovar uma votação sobre Darfur que salvou milhares de pessoas.

Entre os aventureiros, aparece Ibn Battuta , de 22 anos. Ele partiu em uma peregrinação a Meca que se transformou na mais longa viagem turística da época:

"Durou trinta anos e voltou para casa depois de percorrer 120 mil quilômetros. Foi a mais longa distância que uma pessoa podia percorrer em uma vida no século 14, usando os meios de transportes disponíveis - a pé, em mula, cavalo, camelo, carro de bois e barco."

No capítulo dos militares na globalização, os impérios são os personagens principais e o império inglês é o dono do globo, o maior dos globalizadores até o século 20, quando foi engolido pelos americanos, mas a sedução de Nayan Chanda não está nas datas, nem nos números excessivos e indigestos dos livros, reportagens e documentários sobre a globalização.

Terrorismo e nacionalismo podem tirar este processo dos trilhos e nos levar de volta uns dois ou três séculos. Antes que isto aconteça, pegue o livro do Nayan Chanda e faça uma viagem inesquecível da caverna até o império chinês, não os antigos, mas o novo, do século 21 .