Citados em discurso de Obama, israelense e palestino lutam por conciliação

Izzeldin Abuelaish (Foto: BBC) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Abuelaish diz que escolheu 'não ser uma vítima do ódio'

Em seu discurso de quinta-feira sobre o Oriente Médio e o norte da África, presidente dos EUA, Barack Obama, citou um israelense e um palestino que perderam seus filhos no conflito bilateral, mas que permaneciam comprometidos com a busca pela paz.

“Estou convencido de que a maioria dos israelenses e palestinos prefere olhar para o futuro em vez de ficar presa ao passado”, declarou o americano. “Vemos esse espírito no pai israelense cujo filho foi morto pelo (grupo radical) Hamas e que ajudou a iniciar uma organização que uniu israelenses e palestinos que perderam pessoas queridas.”

E Obama prosseguiu: “Vemos esse espírito nas ações de um palestino que perdeu três filhas em bombardeios israelenses em Gaza. ‘Tenho direito de ter ódio’, ele disse. ‘Muitos esperavam que eu tivesse ódio. Minha resposta para eles é que eu não odiarei’”.

Obama não os citou nominalmente, mas muitos reconheceram nas palavras do presidente americano a referência ao médico palestino Izzeldin Abuelaish e ao israelense Yitzhak Frankenthal.

Abuelaish só descobriu isso quando viu sua caixa de e-mails lotada com mensagens de parabéns.

Amigos e admiradores mandaram os e-mails para avisar Abuelaish que, sem que ele soubesse, Obama havia falado dele num discurso escutado por milhões de pessoas.

O médico palestino se disse surpreso e tocado. “Chorei ao ler os e-mails e saber que Obama, em seu discurso, se referiu a mim e disse que a minha abordagem é correta."

A jornalista da BBC Lucy Ash relata que Abuelaish, apesar de viver na pobreza em Gaza, se formou em medicina e se especializou em ginecologia e obstetrícia.

Quando adolescente, ele trabalhara em uma fazenda israelense, onde se convenceu de que a população comum - tanto de palestinos como de israelenses - deseja a paz, independentemente do que digam seus líderes.

Em 2009, durante uma ofensiva militar em Gaza, um morteiro israelense atingiu sua casa, matando três de suas filhas e uma sobrinha sua.

Quase imediatamente, ele telefonou para uma rede de TV israelense e, ao vivo, pediu socorro. A transmissão causou forte comoção em Israel, e Abuelaish se tornou a face pública dos moradores de Gaza presos no conflito.

‘Escolha’

“Tenho o direito de ter raiva (de Israel), mas é uma escolha. A ferida é profunda, mas vou ser mais uma vítima do ódio?”, disse Abuelaish em entrevista à BBC.

Direito de imagem AFP
Image caption Frankenthal uniu pais israelenses e palestinos que perderam filhos

Morando atualmente no Canadá, ele passou a dar aulas de medicina e criou uma fundação de promoção da paz, em homenagem a suas filhas. Sua autobiografia teve o título citado por Obama: “Eu não odiarei”.

O presidente dos EUA também se referiu ao israelense Yitzhak Frankenthal, cujo filho de 19 anos, Arik, foi sequestrado e morto pelo Hamas em 1994 enquanto servia o Exército israelense.

Frankenthal localizou outros pais israelenses que haviam perdido seus filhos no conflito bilateral e levou-os a Gaza, para conhecer palestinos que haviam passado pela mesma situação.

Assim nasceu o grupo Parent Circle – Families Forum (Círculo de Pais – Fórum de Famílias), que reúne pessoas dos dois lados do conflito e que, apesar de suas perdas, pedem paz e reconciliação.

Obama lembrou, em seu discurso, uma fala de Frankenthal: “Aos poucos, percebi que a única esperança para o progresso era reconhecer a face (por trás) do conflito”.

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