Bestices, do campo e da cidade

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Outro dia mesmo, a BBC Brasil publicou uma excelente nota sobre aquela que é tida como a “bíblia” da classe alta britânica, a revista Country Life, lançada em 1897 e resistindo firme, pois a bestice tem vida longa.

Foram-se a Rainha Vitória e o Império, ficou zanzando por aí uma gente que deveria estar posando para caricaturas do falecido Punch, mas que preferiu, embora não por escolha, ser objeto de chacota daqueles que eles mesmos chamam de “classes menos privilegiadas.”

A matéria arrolava 39 itens que todo jovem “bem” deve saber para conseguir maior aceitação social e, segundo os editores, “viver a vida em toda sua plenitude”. Entre os itens havia coisa que esses “hiper-mauricinhos” e “super-patricinhas” britânicos seriam obrigados a ter intimidade. Por exemplo: distinguir um Sauvignon Blanc e um Chardonnay, diferenciar as arquiteturas gótica, barroca e paladiana.

Coisas do campo, ruralismos empolados, tolices de um pessoal de nariz pra cima, por motivo nenhum, como se estivessem evitando um mau cheiro, e que nós bem que poderíamos empregar uma expressão para eles que caberia como uma luva, para usar um lugar-comum que essas ossadas dos bons tempos, ao partir para a caça ou o cultivo de jardins ornamentais, não pegariam lhufas: “grã-jestes”, uma mistura de grãfino com cafajeste.

O que interessa, já que o clima local exige, é fazer listas. O que é indispensável para os imigrantes de origem humilde (humildade que lhes é imposta) e baixas posses. Uma plebe rude que empana as paisagens urbanas. Seja em Slough ou Londres. Quase todos cometeram a besteira de nascerem estrangeiros.

Agora, imigrantes quase todos ilegais, desfrutam dos prazeres e alegrias da vida urbana. Campo, vida rural, para eles, é coisa de de insetos, bichos e urticária. Foi precisamente da vida rural que fugiram.

“O quente é o asfalto”, disseram ao pegar e botar nas costas seus trastes. Uma turma que não veio para vir desfrutar os encantos da vida no campo, mas que, a cada dia, como as raposas cercando os sabujos, mais se aproxima dos “verdes pastos da Inglaterra”. Há que se evitar os “homi”.

Não consegui chegar a 39, mas tentei, que é o que conta. Eis um resultado parcial de coisas necessárias para o imigrante fuleiro ser aceito por seus pares e ímpares debaixo da ponte ou em cima do poleiro de um bar vagabundo da propriedade de um paquistanês:

1- Afanar uma lata de sopa de tomate no supermercado sem chamar a atenção do gerente.

2- Conseguir dizer “mi no espiqui ingrish” com sotaque brasileiro, nigeriano e peruano (Mas ter os documentos, indo que fajutos, em ordem.)

3- Batucar, sem perder uma batida, em qualquer superfície, mesmo no pedregulho do meio-fio.

4- Rachar com o Ngowa o vira-latas para pedir na moita uma esmolinha quando o guarda não estiver vendo.

5- Obter todas as indicações para obter pelo menos 5 benefícios sociais a que não se tem, claro, direito.

6- Pegar o laptop que esqueceram no metrô e tentar se inscrever no Facebook a golpes de pedra ou martelo cedido por amigão.

7- Assobiar ou cantarolar bem alto o tempo todo em todos os lugares. Vale desafinar.

8- Chupar um parafuso até virar prego. A mágica, dependendo da esquina escolhida, pode render alguns cobres.

9- Nunca usar a palavra “apanágio”.

10- Ter pé de atleta ou sentir “dores ciáticas”.

11- Correr a Maratona de Londres numa quarta-feira de tarde em dia chuvoso que não seja de Maratona de Londres.

12- Assistir a todo e qualquer concerto grátis ao ar livre. Participar, se puder. O Bono, principalmente, adora o contato com o que ele chama carinhosamente de “Terceiro Mundo”.

13- Desprezar a “cidra”. Observar para um nativo, se tiver o conhecimento necessário de inglês, que "isso é bebida de mariquinhas".

14- Queixar-se do frio. Frio do tempo e frio das pessoas. Deblaterar sobre o “calor humano” deixado para trás no torrão natal.

15- Fazer suas necessidades ao pé de estátuas de soberanos e militares.

E por aí afora. Mas afora pra valer.