Modelo de rola

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Quando eu era guri ...– pronto lá vou eu de novo me autobiografando, dando notícias de mim mesmo a quem não está interessado. Querem saber de uma coisa? Não gostou de um velho a se rememorar, vai em frente, há blogue que não acaba mais neste mundo de Bill Gates e Steve Jobs.

Tendo alienado o leitor em potencial (eu não perdoo), continuo a namorar meu umbigo jovem, lépido e faceiro. Sou autoridade em pouquíssimas coisas, porém imbatível em tudo que diz respeito a meu umbigo. Ele me torna prolixo e sacal. É meu, no entanto, e eu o exibo no centerfold que me der na veneta.

Se o amigo chegou a este parágrafo, parabéns. Como eu, o senhor, senhora ou senhorita não passam de uns tremendos enganadores. Volto, como se fora uma vocação, para meus tenros anos e, insistente, repito: quando eu era guri, queria ser o Humphrey Bogart ou o Heleno de Freitas quando crescesse.

Não consegui, como está mais do que claro. Tentei, sei que o que vale é a intenção e o esforço, mas foi absolutamente impossível. No máximo, a uma certa idade, logo depois da mudança de voz, eu consegui imitar razoavelmente Bogey, como eu e Lauren “Betty” Bacall o chamávamos na intimidade.

Imitar Heleno? Esquece. Totalmente idiota eu não era e em consequência nunca cheguei a tentar. O mais perto que cheguei do homem foi me entupir de Pervitin, sem ser para estudar de noite para o exame, e dar sarrafada em ponta-direita no futebol de praia, coisa que o craque jamais faria, e onde consegui o temeroso apelido de “Terror do Calçadão”.

De Bogart, além da imitaçãozinha, fumei desesperadamente, com o cigarro entre polegar e indicador semi-oculto na concha da mão direita, como se protegendo um frágil passarinho. Adquiri também o maneirismo de tirar um inexistente pedacinho de papel de cigarro do lábio inferior e, na sessão das 2 no Metro Copacabana, rir irônico entredentes, o lábio superior como se anestesiado, dos imbecis que, quando crescessem, queriam ser Errol Flynn ou John Wayne.

Tinha um na turma que queria ser Yvonne de Carlo quando atingisse os 18 anos. Claro que não deu (pé). Nem foi ele finalista no baile à fantasia do João Caetano. Acabou ingerindo formicida aos 30 anos. Uma história triste que me leva ao ponto aonde eu – não digo que quisesse, mas que com ele encasquetei, compelido não sei por que demônio – queria chegar.

Olho em torno, pois estou na Inglaterra, e a porção que me sobrou, aqui e agora em 2011, foi este: olhar. E de longe. Com o mínimo de movimentos. Ninguém aqui quer ser fulano ou sicrano quando crescer. Os tolos só falam em adotarem um role model.

Neste Obamal da semana que passou, nunca ouvi tanto a expressão. Acho que, como closure, sobre a qual fiz ponderações igualmente bestas e superficiais, como esta, ainda não chegou no Brasil. Role model é um modelo a seguir, um modelo exemplar, alguém em quem se mirar e assaltar o banco que for necessário para conseguir.

Noel Rosa sacou há séculos: não tem tradução. Escritores dinamarqueses como Hans Christian Andersen e Karen Blixen não conseguiriam uma tradução adequada, se vivos estivessem.

Ainda este ano, na BBC, passou uma tele-série dinamarquesa noir sensacional, The Killing (legendada, claro), onde um político volta e meia falava, em meio a uma língua em que eu não entendia nem pata nem vinas, de role model. Quer dizer, lá a moda chegou, só não conseguiram batizar no idioma deles.

Acho que o mesmo se passa conosco. Nós que, impávidos, aceitamos e usamos como se fosse um espetacular pino ornamental (stud, piercing, pois não?) na orelha, nos lábios ou na língua, bully, bullying, delivery e personal assistant,ainda não temos encerramento nem modelos a seguir. Como Heleno de Freitas, Didi ou Garrincha, somos obrigados a inventar e não, como virou hábito, pegar emprestado dos americanos com a maior naturalidade.

Madame Obama em palestra com alunos e alunas de colégios meio fuleiros, seus olhos vagando por baixo de doridas sobrancelhas pintadas, exaltou as virtudes e vantagens de se ter na vida um role model. O marido, em outro canto da cidade, fez o mesmo. Sem dúvida, um é role model do outro. Ambos juntos a outras “celebridades” como Victoria e David Beckham, Paris Hilton (aquela que urina na rua em pé) e Johnny Depp, que, segundo a Associação de Professores, gozam da exemplar predileção dos jovens.

Essa mútua “role-modelice” presidencial talvez explique a ascensão ao poder do casalzinho. Agora, oferecem-se ao mundo para serem modelos exemplares de atitude e comportamento a se seguir. O mundo árabe, em meio a flores desabrochando (“Primavera Árabe” é os tinflas, gente), observa procurando entender e fica na mesma.

Fecho o círculo e me re-umbigo de novo: hoje, modelo mesmo, desempenhando papel importante em minha vida, só Giselle Bundchen e Naomi Campbell. Mas morro de saudades de quando eu queria ser Heleno ou Bogart quando crescesse e virasse gente.