Zelaya volta para Honduras após dois anos fora do país

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Image caption Acordo abre caminho para regresso de Honduras à OEA

O ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya retornou ao país neste sábado, 23 meses após ter sido deposto, fechando um dos capítulos da crise que se arrasta há quase dois anos.

Zelaya defendeu o retorno do país à Organização de Estados Americanos e o reconhecimento da comunidade internacional ao atual governo de Porfírio Lobo.

"Se o governo de Lobo reconhece os direitos democráticos do povo, a comunidade internacional também deve fazê-lo", afirmou Zelaya diante de milhares de simpatizantes.

Instantes após sua chegada, Zelaya, emocionado, beijou o chão e disse que promoverá a reconciliação nacional, o respeito e indenização à vítimas de violações de direitos humanos durante a crise que derrubou seu governo e que continuará com o processo para a realização do plebiscito para promover uma Assembléia Constituinte - argumento utilizado pela oposição para sua deposição.

"Vamos continuar o processo da quarta urna, utilizado como argumento para dar o golpe de estado", afirmou.

Importância

Vindo da Nicarágua, Zelaya foi recebido por familiares e milhares de simpatizantes no aeroporto internacional de Tocontín.

Representantes da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) mostravam cartazes com a frase "Esperamos 700 dias em resistência".

A bordo de um avião venezuelano, Zelaya e seus familiares vieram acompanhados dos chanceleres da Venezuela, Nicolás Maduro, e do boliviano, David Choquehuanca, do Assessor Especial da Presidência, Marco Aurelio Garcia, entre outros representantes diplomáticos.

Zelaya agradeceu o apoio de governantes latino-americanos, entre eles, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Roussef.

"Meu regresso é um passo importante para a reconciliação de Honduras e para honrar a luta mantida pelo povo pela democracia desta nação", afirmou afirmou Zelaya em entrevista coletiva em Manágua, minutos antes de embarcar rumo à Tegucigalpa.

OEA

O regresso de Zelaya é o passo que faltava para a reincorporação de Honduras à Organização de Estados Americanos (OEA) - prevista para a próxima quarta-feira. O país foi expulso da organização logo depois da deposição do ex-presidente.

Mas dirigentes da Frente Nacional de Resistência Popular, plataforma política na qual Zelaya tende a se projetar na política novamente, rejeitam o regresso de Honduras à OEA por considerarem que os crimes contra os direitos humanos no país "continuam impunes".

O reconhecimento ao governo de Lobo também é contrariado pelo presidente do Equador, Rafael Correa, que afirmou que seu país não apoiará o retorno de Honduras à OEA, enquanto os responsáveis pela deposição de Zelaya não forem julgados e punidos.

"Enquanto os golpistas não forem sancionados, Equador não apoiará o retorno de Honduras à OEA", afirmou Correa.

Organizações de defesa dos direitos humanos afirmam que, desde a queda de Zelaya a perseguição política e assassinatos de dirigentes opositores se converteram em uma "política de Estado" em Honduras.

A volta

A volta do ex-presidente é um dos pontos previstos no acordo firmado na semana passada entre o ex-mandatário e o atual presidente Porfírio Lobo.

Mediado por Colômbia e Venezuela, o acordo prevê ainda o reconhecimento da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) como partido político, a realização de uma consulta popular que pode abrir caminho para a Assembleia Constituinte.

Antes desse acordo, a Justiça de Honduras anulou os processos de corrupção e ordem de prisão contra o ex-presidente, emitidos durante o período do governo de fato de Roberto Michelleti.

A crise política em Honduras teve início em 28 de junho de 2009, quando Manuel Zelaya foi destituído do cargo pelas Forças Armadas, acusado de violar a Constituição do país.

Antes de ser afastado, Zelaya defendeu que as eleições de 29 de novembro tivessem mais uma consulta, sobre a possibilidade de se mudar a Carta Magna hondurenha.

Segundo sua proposta, os eleitores decidiriam nessa consulta se desejavam que se convocasse uma Constituinte – o que, segundo o principal assessor do líder deposto, Carlos Reyna, é "uma necessidade histórica de Honduras".

Os críticos de Zelaya afirmam que sua intenção era mudar o marco jurídico do país para poder se reeleger, o que é vetado pela atual Constituição.

A deposição do presidente eleito foi condenada internacionalmente. No lugar de Zelaya, que foi levado para fora do país, assumiu um governo interino, liderado pelo antigo presidente do Congresso, Roberto Micheletti.

No dia 29 de novembro, apesar da resistência de aliados do líder deposto, o governo interino realizou a eleição presidencial, na qual Porfírio Lobo foi eleito.

Zelaya tentou regressar ao país três vezes, sem sucesso. A primeira tentativa foi em 5 de julho de 2009, quando o então presidente do governo de fato de Roberto Micheletti proibiu o pouso do avião que o trazia.

Manifestantes que esperavam a chegada do ex-presidente foram duramente reprimidos. Um adolescente foi morto com um tiro na cabeça.

Em meio a manifestações contra a derrubada de Zelaya, que bloquearam o país durante meses, ele ensaiou um retorno por terra, também sem sucesso, na fronteira entre Honduras e Nicarágua.

Em 21 de setembro daquele mesmo ano, Zelaya entrou a Tegucigalpa por terra e se refugiou na embaixada do Brasil, onde permaneceu até janeiro de 2010.

Sem acordo político, da embaixada Zelaya partiu para a República Dominicana, onde permaneceu exilado. "O exílio é uma tortura", disse Zelaya, neste sábado.

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