Após atraso, Dilma é recebida pelo presidente do Uruguai

José Mujica recebe Dilma Rousseff no Uruguai. | Foto: Roberto Stuckert Filho / PR Direito de imagem Roberto Stuckert Filho
Image caption DIlma foi recebida pelo colega uruguaio José Mujica em Montevidéu

Após um atraso de meia hora, por conta do mau tempo no voo vindo do Brasil, a presidente Dilma Rousseff foi recebida às 12h30 desta segunda-feira pelo presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, na capital do país, Montevidéu.

Após o pouso, Dilma seguiu para o Laboratório Tecnológico do Uruguai, onde conheceu as instalações onde se concentrarão os equipamentos e onde será feita capacitação de profissionais para que a televisão uruguaia se adapte ao padrão nipo-brasileiro de TV digital.

A viagem de Dilma ao país, adiada quatro vezes, era aguardada com expectativa por parte do empresariado local – preocupado com a inclusão, por parte do Brasil, de produtos uruguaios no sistema de licenças não-automáticas de importação.

Durante sua visita de cinco horas à capital do país, a presidente assinou 13 atos de cooperação em áreas como saúde, educação, segurança e assistência humanitária, e divulgou uma declaração conjunta com José Mujica sobre projetos bilaterais de integração energética, ferroviária e fluvial.

Dilma viajou acompanhada do chanceler Antonio Patriota e dos ministros de Justiça, Transportes, Cultura, Telecomunicações, Ciência e Tecnologia, Integração Nacional e Cidades.

Principal mercado

A região central de Montevidéu, próxima ao centro histórico da capital, foi parcialmente fechada para a visita de Dilma Rousseff.

Nas ruas próximas ao Palácio Santos - a sede da chancelaria uruguaia, onde os presidentes permanecerão durante boa parte do dia de hoje - era grande a curiosidade dos pedestres, que se amontoavam nas calçadas para ver a movimentação das autoridades.

Atualmente, o Brasil é o principal mercado das exportações do Uruguai e o principal fornecedor de produtos ao país.

Segundo o governo brasileiro, em 2010 o intercâmbio bilateral ultrapassou os US$ 3 bilhões, o que representou um aumento de 19,4% em relação ao ano anterior e uma relação comercial equilibrada, com aproximadamente o mesmo valor de US$ 1,5 bilhão tanto de exportações para o Uruguai quanto de importações oriundas do país vizinho.

'Brasil-dependência'

Durante a visita, Dilma e Mujica discutiram iniciativas para reduzir a insatisfação de alguns setores da população uruguaia com a ofensiva de empresários brasileiros no mercado local nos últimos anos e o crescente atrelamento do Uruguai à economia brasileira, um fenômeno que já foi apelidado de "Brasil-dependência".

Sobre a mesa de reuniões estiveram temas como a integração entre o norte do Uruguai e o sul do Rio Grande do Sul, com a construção de uma nova ponte sobre Rio Jaguarão, a implantação de uma hidrovia entre os dois países, a reativação de uma linha férrea entre as cidades de Livramento e Cacequi e a construção de uma linha elétrica que una os dois países, iniciativas que, segundo o Itamaraty, receberão "atenção prioritária" por parte dos presidentes.

Entre os projetos incluídos nos acordos e memorandos de entendimento assinados também estão a instalação de laboratórios de conteúdos de TV digital e aplicações interativas no Uruguai.

Nesse aspecto, a visita foi pautada por uma decisão de Mujica no ano passado, quando ele anulou decisão de seu antecessor, Tabaré Vázquez, e optou pelo sistema nipo-brasileiro de TV digital.

Segundo uma fonte do Itamaraty, o governo brasileiro pretendia manifestar na visita seu apreço pela decisão do vizinho por meio de cooperação também nas áreas de saúde, segurança, ciência e educação.

O comércio de arroz é outro tema que estava previsto no encontro entre Dilma e Mujica. Nas últimas semanas, produtores fecharam ponte que liga o Rio Grande do Sul à Argentina para protestar contra o ingresso do produto de países do Mercosul, o que, segundo eles, está barateando excessivamente o arroz nacional.

O Brasil tenta negociar com o Uruguai a venda de parte do excedente do arroz uruguaio para países de fora do Mercosul, a fim de proteger os produtores brasileiros.

Reencontro com o passado

A ida de Dilma Rouseff ao Uruguai marcou ainda o reencontro da mandatária com uma parte de seu passado. Além de compartilhar com Mujica o fato de haver combatido a ditadura militar a partir de movimentos de esquerda – o presidente uruguaio foi um dos líderes da organização guerrilheira Tupamaros -, a presidente esteve no Uruguai para receber um “treinamento de inteligência”, segundo comentou.

Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em 2010, Dilma contou como eram os exercícios praticados no país.

"Geralmente a gente fazia numa fazenda. Era mais seguro fazer na fronteira. Ia pouca gente. Na minha vez foram cinco ou seis pessoas. Nunca tive pontaria, mas pegava bem. Era uma ótima limpadora. O meu treinamento foi muito simplório. Não se atirava muito. Montava-se e desmontava-se (armas). Também (havia treinamento) de segurança. Você olha como é que faz para não ser seguido."

* Colaborou João Fellet, de Brasília

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