A primavera árabe

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Sem equinócios ou solstícios, quase que sem o mundo ocidental notar, em meio às suas explosivas e enfumaçadas incursões militares na região, sem falar no próprio pau local, a “Primavera Árabe” teve início no dia 18 de dezembro de 2010 no Oriente Médio e Norte da África.

Desabrocharam, como flores multi-coloridas, comícios, demonstrações e passeatas, protestos de uma forma geral, a favor – ou pedindo e exigindo – democratizações e, segundo historiadores avoados, mais baldes para regarem seu florido jardim que, no meio da areia, da miséria, da cacetada policial ou militar, insistia em crescer – e aparecer, como a margarida.

Em lugar de rituais pagãos, ou mesmo agenda e programa organizado de ação, o que deu mesmo foram as novas tecnologias de comunicação informática.

Poder-se-ia dizer (para os que cultivam a mesóclise) que a inusitada estação, para toda aquela região, foi regada a Facebook, Twitter e YouTube. Era um tal de Abdulas trocarem com Alis informações valiosas, muitas com mais de 140 caractéres arábicos. “Ei, cara, num esquece, amanhã na praça Fuad, vamos botar pra quebrar!” e variações em torno do encontro florido.

Com flor não se brinca. Elas tendem a pegar o poder distraído. E mesmo as mais delicadas e formosas podem morder os calcanhares dos homens no poder.

Sem termos de sair de nosso hemisfério, lembremos de Geraldo Vandré, todo de preto, lembrando que já havia falado de flores. Não foi bem o início de uma “Primavera Brasileira”, mas que chateou os homens, lá isso chateou.

E nosso democrático desabrochar ficou adiado por mais umas duas décadas e durou bem mais que o tempo de uma manhã, que é o que duram as rosas, segundo o lendário poético vulgar.

Durou o tempo que os milicos quiseram. Só ai então pudemos plantar e regar essas begônias que florescem a todo vapor (?) em nosso riquíssimo, lato senso, processo democrático.

Afastei-me de propósito do assunto que virou minha pauta de hoje.

Eu gosto mais das palavras e o que elas, bem calibradas, podem fazer, e só a elas e com elas paro e boto minha fantasia de jardineiro tropical e empunho, como se um cartaz subversivo em meio à passeata, ou, no caso de levante mais sério, minha espingardinha tcheca.

Eu disso tcheca? Pois disse-o bem.

Eu só tenho uma única objeção à chamada “Primavera Árabe”: chamar o que está acontecendo de “Primavera Árabe”.

No Oriente Médio e no Norte da África não há primavera na acepção rigorosa ou até mesmo generosa do fenômeno. Qualquer meteorologista sabe disso. Tem tempestade de areia. siroco, Peter O´Toole, Omar Shariff, cobras venenosas, camelos cuspindo longe e, num bom dia, coisa rara, oásis e miragens não de todo desprezíveis.

As canções do deserto e das cidades árabes e norte-africanas, não ligam a primavera a um estado de espírito amoroso, tenro, inspirador de namoros e amores. De jeito nenhum. É areia e vento.

Consta haver 250 milhões de tipos de areia diferentes e, pelo menos, uns 3 mil ventos distintos.

E os namorados Nadruz e Soraya vão de braços dados porque a Primavera é a estação do amor? Em absoluto. Como disse, lá não tem disso, não. Perguntem ao Hosni Mubarak no Egito e esperem a resposta.

“Primavera”, no sentido político, só mesmo a de Praga, em 1968. Aquela sim era um florescer de democratizações e reformas econômicas, e quem a regava era o saudoso Alexander Dubcek. Foi o ano em que cheguei à Europa e só se falava nisso.

Como o que é bom e decente dura pouco, a “Primavera de Praga” durou quase nada, de janeiro a agosto apenas. Mais do que nossas primaveras e mesmo do resto da Europa.

Mas os russos, então soviéticos, sabem, ou sabiam, cuidar dessas flores perigososas e tacaram não balde mas canhão d´água e tanque pra cima do subversivo, lá pra eles, florescer.

Não sobrou pétala sobre pétala e a despolinização do país em estação “errada” foi rápida e rasteira.

Tiveram, os pobres tchecos, de aguentar um tempinho, até 1989, para ser preciso, e a “Revolução de Veludo” para a descomunização do país.

Frise-se que em certos países, segundo o lendário popular, e certas pesquisas científicas, “flor” e “primavera” dão azar, ao passo que veludo é um material excelente para troca da guarda e mulher bem fornida.

Portanto, Tunísia, Egito, Síria, Iêmen, Sudão, Argélia, Bahrein, Irã, Iraque, Jordânia, Omã e Marrocos, devagar com essa primavera aí.

Deixem as flores para lá e reguem cactos que é mais saudável. Vejam vosso Khadafi como está sendo caçado a jatos “aliados”. Está valendo executar chefe de estado tido como flor nociva e indesejável pelos países com quatro estações definidas.