Humala suaviza propostas para tentar reverter rejeição no Peru

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Image caption Humala lançou novo plano de governo de olho em eleitores moderados

O candidato de centro-esquerda à Presidência do Peru, Ollanta Humala, vem tentando de tudo para apagar as relações que teve no passado com o presidente venezuelano, Hugo Chávez - uma amizade que ainda o assombra e que pode fazê-lo perder votos no segundo turno da eleição, no domingo.

No mês passado, Humala lançou um novo plano de governo na tentativa de conquistar os moderados, deixando de lado planos como o de nacionalizar fundos de pensão do país e ressaltando que, se eleito, respeitará um Congresso e um Judiciário independentes.

O ex-militar também trocou a camisa vermelha que usava nas eleições de 2006 por modelos em branco e azul claro. Na última votação, em 2006, ele foi derrotado pelo presidente Alan García, e a aliança com Chávez pesou contra sua campanha.

A mudança no guarda-roupa foi apenas uma das novas diretrizes de sua campanha, que desde janeiro conta com a assessoria dos petistas Luis Favre, ex-marido da senadora Marta Suplicy (PT-SP), e Valdemir Garreta.

No entanto, uma pesquisa realizada pelo instituto peruano Ipsos Apoyo na semana passada indica que o maior argumento de rejeição continua sendo "estar vinculado a Hugo Chávez", somando 45% dos eleitores que não votariam no candidato nacionalista.

"Houve um grande esforço para acabar com a sua figura de militar e com a ideia de que não aceita instâncias democráticas", diz o historiador e analista político peruano Eduardo Toche.

"O lado positivo dessa mudança mais ao centro é que agora sua imagem é a de uma pessoa com maior capacidade de negociação, mais aberta e flexível. Mas seu erro foi não mostrar claramente seu limite para avançar ao centro."

Mudanças

Na opinião da analista e jornalista peruana Jacqueline Fowks, não há razões para acreditar que Humala - da aliança Gana Peru - voltará atrás em suas posições, como temem muitos investidores.

"Acredito que ele não terá nem orçamento nem alianças parlamentares suficientes para mudanças radicais, como havia prometido em seu primeiro plano de governo."

Para Fowks, o contrato de estabilização tributária e jurídica e tratados de livre comércio firmados em governos anteriores não deixam muito espaço para o candidato nacionalista fazer grandes alterações de rumo. "Ele está quase 'obrigado' a ser de centro", diz Fowks.

A sondagem da Ipsos Apoyo aponta ainda que o fato de representar mudanças e ser uma pessoa nova no governo são os atributos de Humala que mais atraem os eleitores, além do que os peruanos acreditam ser uma grande capacidade de combater práticas corruptas.

"Um dos pontos que Humala tem a seu favor é ser percebido como o candidato mais apto para lutar contra a corrupção. Muitos o veem como honesto, mas também como sendo alguém 'duro' contra os corruptos", afirma a socióloga e cientista política Cynthia Sanborn.

Relação com Brasil

Se por um lado a assessoria dos petistas ajudou a suavizar a imagem de Humala e a impulsioná-lo na disputa, essa aproximação com políticos brasileiros é vista com desconfiança por muitos especialistas.

"Todos querem ser Lula. Isso é fato. Mas tenho dúvidas sobre como Humala vai estabelecer relações com Lula, o PT e o governo brasileiro", afirma Toche. "Não sei até que ponto ele tem clara sua agenda com os brasileiros, porque uma coisa é lidar com o governo, outra com o PT e outra com as empresas brasileiras." Fowks afirma que a escolha de petistas para assessorar o candidato e a aproximação com Lula não devem ser ignoradas. "Não foram apenas mostras de admiração a uma figura política chave da região", diz.

Para a analista, alguns políticos brasileiros estão prestando muita atenção às eleições no Peru, coisa que não aconteceu em eleições anteriores. Ela lembra que há muitas empreiteiras e mineradoras brasileiras que atuam no Peru, além de acordos de cooperação energética entre os dois países.

"Acho que ele é o candidato do Brasil, que precisa que os interesses de algumas de suas empresas sejam mantidos. E Humala será o 'garantidor' dessa condição."

Família

O candidato de centro-esquerda - assim como sua rival, Keiko Fujimori - enfrenta nesta disputa o desafio de se distanciar de um passado conturbado de seus familiares.

Leia mais na BBC Brasil: Filha de Fujimori ressalta lado 'mãe e mulher' para vencer no 2º turno

Enquanto Keiko reafirma a todo instante que ela é a candidata, e não seu pai - o ex-presidente Alberto Fujimori, preso por corrupção e violação de direitos humanos -, Humala vem se esforçando para se afastar de seu pai e seu irmão, dois políticos radicais.

O irmão do candidato, Antauro Humala, é um ex-militar condenado a 25 anos de prisão por liderar em 2005 um ataque cujo objetivo era obrigar o então presidente Alejandro Toledo a renunciar.

O advogado de Antauro no processo foi justamente o pai deles, Isaac Humala, fundador do etnocacerismo - um movimento peruano que, grosso modo, prega o retorno às raízes incas do país.

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