Fifa fofa

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Como vivo dizendo, no meu tempo era diferente. Feito dizem todos com pouco tempo pela frente e não se lembram direito de nada.

Corrupção e suborno eram coisa de pobre. Ou seja, jogadores e juízes.

Futebol dava pouco dinheiro e o bem-bom mesmo ficava para o que chamávamos na época de “cartolas”. Os jogadores, coitados, ganhavam uma miséria.

Muitos clubes (sim, é você mesmo, “seu” Fluminense) não deixavam sequer que eles botasem os pés na social em qualquer evento festivo. Só entravam para renovação ou transação de passe. E feliz do jogador que tivesse voz ativa na transa, ou, para ser franco, tramóias.

Já o que se passava em campo era bom para valer. Mesmo. Jogava-se futebol. E como. Graças ao YouTube e outros sítios dá para conferir. Não é (só) papo de velho.

Sim, claro, tinha corrupção e suborno comendo solto. Bastava comprar o juiz, o que não era difícil, o goleiro ou o artilheiro do time adversário. Saía a preço de banana e havia desconto para o pacote.

Depois, como tudo mais, o futebol passou a dar uma nota. Hoje bilhões correm soltos pelas pontas sem marcação.

Os “cartolas”, se globalizaram, viraram notícia tão ou mais importante que o gol de Pelé no apagar das luzes da contenda, para pedir emprestado um pouco da locução esportiva, que, como tudo ligado ao balípodo (esse não pegou), virou refrescante fonte de renda.

Já vi menino na rua discutindo os méritos de João Havelange e Sepp Blatter. Antes o pau saía do verbal para o físico quando o assunto eram os atributos artísticos de cobras como Lemerson e Celimar, para ficar em dois exemplos felizmente inexistentes.

Das gerais e das arquibancadas, de uma social ou outra, até mesmo das tribunas de imprensa, quando o suborno de sua excelência o juiz era gritante, vinha o berreiro, quase que em uníssono, “Filho da...”. Mais bonito que cantar hino ou desfaldar bandeira do time.

Chegando a nossos dias, e peço dispensa deles por motivo de saúde, futebol é o esporte-beleza, ou thebeautiful game, como dizem os ingleses e até os americanos, que, vez por outra, a ele dedicam umas páginas em seus semanários dito sérios.

Tão esporte e tão beleza que quem anda frequentando mais páginas nos jornais e na televisão são os dirigentes, para não ter que botar cartola na cabeça de quem não merece sequer boné dos New York Yankees.

Como tudo que vale a pena merece patrocínio, e alto, o futebol está na farta lista de distribuição de grifes de seleção titularíssima, feito a Coca-Cola, a Adidas, a Nike, Visa e – salve, salve Primavera Árabe! – o grupo Emirados.

Eles estão preocupados com esse ventilador que anda soprando e espalhando coisa mal-cheirosa: acusações e alegações, se diferença houver entre um e outro, sobre o órgão que cuida dos interesses do – segurem outro chavão – esporte das multidões.

O órgão atende pelo nome de Fifa. Trata-se de uma gostosura de organização que cuida dos interesses dos donos do futebol. Ou seja, nada a ver com quem o pratica ou acompanha. Boca riquíssima, papa fina, um verdadeiro banquete segundo acusadores e alegadores.

Tudo porque correu a notícia, ou boato canalha, de que a Fifa “vendeu” a realização da Copa de 2022 no Catar. (Dá-lhe, Primavera Árabe!). Para não falar (mas vamos falar, tá bom?) das acusações de próprios Fifeiros graúdos sobre licitações em flagrante impedimento para o local da realização das Copas de 2018 e 2022.

Por uma vez, nenhuma acusação ou sequer menção do Brasil em 2014. Em compensação, é voz geral, arquibancada e cadeira numerada de que países caribenhos andaram pegando, ou tentando pegar, nossos mui conhecidos “incentivos fiscais”.

Mal o Barça estraçalhou o poderoso, ou o mais rico time de futebol do mundo, o Manchester United, e já não se fala da magia do argentino Messi. Esse já era, segundo o populacho que compra tablóide sensacionalista.

Bom mesmo, celebridade quentérrima, é o suiço Sepp Blatter, de 75 anos, atual dirigente da Fifa, com seus 107 anos de existência e guardiã zelosa dos 208 países a ela afiliados.

Sepp Blatter, nesta quarta-feira, concorre, sem adversário que tenha posto a cabeça para fora, a mais um mandato nesse pastel auto- premiado que é a fofa Fifa.

As associações inglesa e escocesa de futebol andaram ameaçando boicote, adiamento devido ao mau tempo reinante, qualquer coisa, mas Sepp desarmou os atacantes todos com a bela jogada de lançar no meio de campo o velho esquema de “crise, que crise?” vai tudo bem, muito bem, pombas! Ou palavras nesse sentido. Não é que colou?

Tudo bem estava e tudo bem continuará. Sepp e patrocinadores marcaram o gol da vitória. Vitória por desistência e abandono da possibilidade da contenda.