Síria investigará morte de menino ‘torturado’ símbolo de protestos

Crianças acendem velas e levam cartazes do menino morto Hamza/Reuters Direito de imagem BBC World Service
Image caption O governo nega que Hamza tenha sido torturado

O governo sírio anunciou nesta quarta-feira um inquérito sobre a morte de um menino de 13 anos que se tornou um símbolo do levante popular contra o presidente Bashar Al-Assad.

O garoto Hamza Al-Khatib desapareceu após um manifestação próxima a um quartel na cidade de Deraa, no sul da Síria, em abril.

Ativistas de oposição dizem que ele foi torturado até a morte por forças de segurança, e que seu corpo mutilado foi devolvido para a família quatro semanas depois.

O governo, por outro lado, diz que Hamza recebeu três tiros fatais durantes os protestos e morreu na hora, mas o corpo não foi devolvido imediatamente por não ter sido identificado.

Governo

A TV estatal síria transmitiu um programa sobre o adolescente na noite de terça-feira no qual um juiz disse que a morte foi causada por “vários tiros, sem indicação de tortura ou espancamento no corpo”.

Ele disse que a má aparência do corpo se deve a seu estado de decomposição, afirmando que “não há marcas na superfície que mostrem violência, resistência ou tortura”.

A TV estatal diz que a família do menino foi convidada para se encontrar com o presidente Assad e teria dito que o líder os “envolveu com sua graça e bondade”.

Um homem identificado como sendo o pai de Hamza disse que “o presidente considera Hamza como seu próprio filho e ficou profundamente tocado”.

O correspondente da BBC no vizinho Líbano Jim Muir diz que a iniciativa do governo sírio não impediu que a morte do garoto desse ânimo novo e mais munição aos manifestantes.

Reação

Hamza Al-Khatib vem sendo comparado ao tunisiano Mohamed Bouazizi e a iraniana Neda Agha Soltan, cujas mortes inspiraram campanhas contra os regimes de seus países.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse esperar que a morte estimule o governo sírio a iniciar uma transição rumo a uma "democracia de verdade".

O ministro das Relações Exteriores da Austrália, Kevin Rudd, disse que incidentes como este tiram toda legitimidade de Assad e pediu para que o Conselho de segurança da ONU recomende o caso para o Tribunal Penal Internacional.

A ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch publicou um relatório nesta quarta-feira afirmando que “os assassinatos sistemáticos e torturas cometidos pelas forças de segurança sírias caracterizam crimes contra a humanidade”.

Ativistas dizem que mais de mil pessoas morreram nos protestos de oposicionistas na Síria, que vem ocorrendo desde março.

Também nesta quarta-feira, o grupo de defesa dos direitos humanos baseado em Londres Syrian Observatory for Human Rights disse que cerca de 500 prisioneiros políticos foram libertados - entre eles, alguns que haviam sido presos por participar de manifestações contra o governo - depois que as autoridades anunciaram uma anistia.

No anúncio da medida, na terça-feira, a TV estatal síria disse que ela incluiria integrantes da organização proibida Irmandade Muçulmana, que liderou um levante contra o pai de Assad, o ex-presidente Hafez, em 1982.

Leia mais na BBC Brasil sobre a anistia na Síria

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