Polarização de candidatos e narcotráfico atraem atenção para eleição peruana

Keiko Fujimori e Ollanta Humala. Direito de imagem Reuters
Image caption Para analistas, rivais tem compromisso duvidoso com democracia

A disputa presidencial peruana, que termina neste domingo, e a biografia de seus protagonistas atraem atenção dentro e fora das fronteiras do país.

Por um lado, dizem os analistas, o interesse vem da crescente importância do Peru no cenário mundial. O país apresenta números promissores como taxa de crescimento econômico em torno de 6% nos últimos anos e um aumento de quase 50% na renda per capita na última década.

Mas, o bom momento econômico é visto também com certa preocupação, já que até agora ele foi pouco usado para reduzir a desigualdade social. Esse é justamente o principal desafio do próximo presidente, seja a conservadora Keiko Fujimori ou o nacionalista Ollanta Humala.

Além da expectativa sobre o rumo da economia, também há preocupações com a manutenção da democracia no país. Os dois candidatos têm históricos que despertam temores entre especialistas, investidores e defensores dos direitos humanos.

O aumento do tráfico de drogas no Peru, que segundo a ONU, deve ultrapassar a Colômbia como maior produtor mundial de cocaína, é outro foco de preocupação, especialmente para os países com fronteiras porosas com o país - caso do Brasil.

'Compromisso duvidoso'

Para a socióloga e cientista política Cynthia Sanborn, da Universidade do Pacífico, o interesse internacional pela eleição peruana vem basicamente do fato de "os dois candidatos terem um compromisso duvidoso com a democracia e com os direitos humanos".

A disputa, segundo o sociólogo Sinesio López Jiménez, da PUC Peru, tem atraído enorme atenção por envolver dois políticos com altíssimo nível de rejeição. "Humala sofre resistência de todos os poderes, como o empresariado, o atual governo e a igreja conservadora", diz.

"Já Keiko é criticada por grupos democráticos que lutam contra a corrupção e a ditadura a que, avaliam, ela dará continuidade (seguindo o legado do pai, o ex-presidente Alberto Fujimori)."

A preocupação com a polarização das eleições extrapola os interesses domésticos, já que também pode alterar o jogo político regional.

De um lado, o candidato de centro-esquerda, Humala, que segundo os especialistas costuma ser identificado com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, apesar de ter se distanciado dele nesta campanha.

E na outra ponta da disputa está Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país por 10 anos na década de 90 com um mandato marcado por grandes polêmicas. Fujimori acabou sendo condenado a prisão em 2009, acusado por corrupção. Keiko acaba sendo sendo vista como alinhada com a direita e com os Estados Unidos, mesmo também tendo tentado se afastar de Washington.

Peso regional

Para o economista peruano Gianfranco Castagnola, do instituto de pesquisa Ipsos, a importância dessa votação está no fato de o Peru ter se alinhado com a Colômbia e com o Chile em termos de modelo econômico de livre mercado e abertura comercial.

O plano de governo original de Humala - que depois o relançou em uma versão mais moderada - estava, segundo o economista, mais próximo do que se aplica na Venezuela, Equador e Bolívia.

"Por isso, uma possível mudança de orientação do governo peruano poderia ter um grande impacto regional."

A vitória de Humala, na opinião do sociólogo López Jiménez, representaria o triunfo da centro-esquerda da América Latina, na linha de Lula, e dos ex-presidentes chilenos Ricardo Lagos e Michelle Bachelet. “E isso altera as relações de força na América Latina: Os EUA ficam mais enfraquecidos e o Brasil se fortalece."

Fronteira da cocaína

Bem menos discutido do que o alinhamento dos candidatos e seu impacto na região, o tráfico de drogas pouco entrou na pauta de Keiko e Humala, apesar de ser considerado um ponto crucial nas relações com os vizinhos.

"A cooperação entre Brasil e Peru no que diz respeito à fronteira já existe, mas tende a se aprofundar no próximo governo", afirma o embaixador brasileiro em Lima, Jorge Taunay.

"Vamos continuar vigilantes porque esse é um tema muito preocupante.”

O especialista em relações internacionais Alberto Pfeifer, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint-USP), diz que o que está acontecendo no momento é um deslocamento permanente das rotas do tráfico através da grande fronteira da cocaína.

Segundo ele, o cultivo da folha de coca na região ocorre prioritariamente em três países - Colômbia, Peru e Bolívia - e quando o cerco aperta em uma área, o tráfico parte para outra.

“No momento, há uma grande repressão na Colômbia, o que desloca o negócio para o Peru, onde tem havido um certo relaxamento no controle”, diz Pfeifer.

De acordo com os dados da ONU divulgados este mês, enquanto as áreas cultivadas com folha de coca nos outros países vêm caindo drasticamente, no Peru elas estão aumentando há quatro anos seguidos - em 2010 houve um aumento de 7%.

Pfeifer ressalta ainda que o tema vem ganhando atenção no Brasil por causa do aumento no consumo de cocaína e também porque o tráfico está ligado a outros crimes, como lavagem de dinheiro, comércio ilegal de armas e aliciamento de pessoas.

Narcopolítica

Outra consequência do aumento do tráfico no Peru é que, segundo os especialistas, a sua área de influência na política se ampliou. O poder que os traficantes já tinham em eleições locais agora chega também à esfera da política nacional.

Tanto Humala quanto Keiko estão ou estiveram envolvidos com pessoas suspeitas de ligação com o tráfico, seja na figura de aliados políticos ou de doadores de campanha, o que faz com que alguns analistas peruanos citem o termo "narcopolítica" para falar sobre as eleições.

Para a socióloga Cynthia Sanborn, a questão do tráfico foi menosprezada pelos candidatos peruanos, mas é importante “sobretudo pela provável presença de dinheiro do tráfico nas campanhas”.

“Os dois têm colegas de legenda e financiadores de campanha acusados de serem traficantes ou lucrarem, ainda que indiretamente, com as drogas", afirmou.

Notícias relacionadas