Saleh governou com ajuda da força e de aliados no Ocidente por 30 anos

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Image caption Saleh: ferimentos podem pôr fim a três décadas de poder

Ali Abdullah Saleh provou ser um dos líderes mais tenazes do mundo árabe, projetando uma imagem de estadista até afável diante da oposição popular, em um contraste agudo com alguns de seus contrapartes durante a chamada Primavera Árabe.

Embora o Iêmen tenha sido palco de uma sangrenta repressão a protestos na capital, Sanaa, e em outras cidades, o presidente buscou - com cada vez menos sucesso - distanciar-se da violência.

Mas o calvário do país finalmente o alcançou quando ele foi ferido, no dia 3 de junho, em um ataque ao complexo de prédios da Presidência em Sanaa, que feriu vários integrantes do governo e matou sete guarda-costas.

No dia seguinte, Saleh foi levado em um avião saudita para Riad, para receber tratamento médico para as queimaduras que sofreu, e para um pedaço de estilhaço que tem alojado embaixo do coração.

Críticos dizem que, há mais de três décadas no poder, Saleh usou todos os meios e brechas para ficar no poder, prometendo deixar a política apenas para ganhar tempo e prolongar sua permanência no poder.

"Ele sempre governou criando confusão, crises e algumas vezes medo junto àqueles que poderiam desafiá-lo", disse a especialista em Iêmen Sarah Phillips, em um artigo para o jornal britânico The Guardian.

Saleh liderou um dos países mais desafiadores da região, um Estado empobrecido, vulnerável ao radicalismo islâmico, posicionado entre Estados do golfo ricos em petróleo e a Somália imersa no caos, e ainda se curando de uma cisão semelhante à das Corérias durante a Guerra Fria.

Agora se aproximando dos 70 anos, ele compara a tarefa de governar o Iêmen com "dançar sobre as cabeças de cobras".

A república moderna do Iêmen está intrincadamente ligada a Saleh, que foi eleito primeiro presidente do país após a unificação, em 1990.

Carreira militar

Nascido em Sanaa e com pouca escolaridade, ele chegou ao poder através de forças militares do Iêmen do Norte, tendo sido ferido durante a guerra civil em 1970, entre republicanos e monarquistas - apoiados pelos sauditas.

Ele participou de um golpe quatro anos depois e assumiu seu primeiro papel de liderança em 1978, quando o Parlamento endossou-o como presidente.

Nos próximos 12 anos ele governou sobre o desgastante trabalho de unificação com o Sul do Iêmen, marxista, em um processo que parecia ter entrado em colapso em 1994, quando a guerra civil eclodiu.

No exterior, Saleh conseguiu o difícil equilíbrio de manter-se aliado do Ocidente e de potências árabes.

Sua batalha para controlar a rede Al-Qaeda - que criou no Iêmen uma base comparável à do Afeganistão, no fim dos anos 1990 - lhe valeu amigos em Washington. Se não fosse por isso, os americanos bem que poderiam ter levantado suspeitas sobre um líder que permaneceu próximo a Saddam Hussein durante a ocupação do Kuwait.

O espectro da guerra civil é algo que Saleh continuou a evocar em uma tentativa e justificar sua permanência no poder.

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Image caption Multidão comemora em Sanaa saída de Saleh do país

"Eles [a oposição] querem arrastar a área para a guerra civil e nos recusamos a ser arrastados para a guerra civil", disse ele em um discurso no dia 22 de abril, um dia antes de ter sido divulgada a notícia de que ele tinha concordado em deixar o poder de forma iminente.

A morte a tiros de 45 pessoas por franco-atiradores em uma manifestação da oposição em Sanaa, no dia 18 de março, se transformou na gota d'água para muita gente, apesar de o governo ter negado que suas forças de segurança participaram da repressão.

Ministros e embaixadores o abandonaram em protesto, e as multidões nas ruas incharam nas semanas seguintes.

Com a revolta agora somada à raiva contra a corrupção e à pobreza - que ele não conseguiu combater por décadas - os dias de "dança sobre cobras" de Saleh parecem estar perto do fim. Alguns analistas duvidam que ele retorne a Sanaa para retomar o poder uma vez que suas feridas sarem.

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