Preconceito faz das mulheres as maiores vítimas do trânsito em Bangladesh

Mulheres tentam embarcar em ônibus em Daca
Image caption Mulheres nem sempre conseguem embarcar nos ônibus lotados

Mulheres têm morrido nas estradas de Bangladesh simplesmente porque não conseguem usar os meios de transporte coletivos.

Em 2006, ano mais recente com estatísticas disponíveis, 10,8 mil mortes de pedestres representaram 54% de todos os acidentes de trânsito em Bangladesh – uma das maiores proporções do mundo.

Riquixás, triciclos movido à força humana ou por um motor, eram o método mais popular de transporte para mulheres na capital, Daca, até que as autoridades os baniram de muitas das rodovias do país em 2002.

Desde então, a população de Daca, de 7 milhões, passou a depender de uma rede de ônibus públicos e privados.

Mulheres – algumas delas tomando um ônibus pela primeira vez em suas vidas – nem sempre conseguem embarcar. E, quando conseguem, muitas vezes sofrem abusos por parte de outros passageiros e de motoristas, por conta de um resistente preconceito de quem acredita que o lugar delas é em casa.

“Algumas pessoas furam nossas roupas com cigarros, outras cospem em nossas costas”, disse à BBC Nazmun Nahar, enfermeira em Daca.

Oficialmente, os ônibus da cidade têm assentos separados para homens e mulheres. Na prática, isso não significa muito.

Atualmente, até 50% dos usuários de transporte na capital bengalesa são mulheres, mas, em geral, estão reservados para elas apenas nove assentos em cada ônibus.

Nos horários de pico, muitos homens se recusam a deixar que elas se sentem ou mesmo que embarquem nos ônibus.

Por isso, muitas mulheres se veem forçadas a caminhar ao longo de estradas mal-iluminadas e caóticas.

Papel

Image caption Nos horários de pico, mulheres têm mais dificuldade para embarcar

Tradicionalmente, o papel reservado à mulher na sociedade bengalesa é o de cuidar dos filhos e da casa, mas os tempos estão mudando.

Para algumas, trabalhos em fábricas têxteis, por exemplo, são a única forma de evitar a fome.

Um relatório recente do Banco de Desenvolvimento Asiático identificou os transportes e a infraestrutura como as prioridades-chave do país para combater a desigualdade de gêneros.

Trabalhadoras fabris frequentemente andam por diversos quilômetros no escuro para voltar do emprego para casa, por causa da falta de opções em transporte.

Algumas delas protestaram contra abusos perpetrados por passageiros homens e motoristas. Mashrufa Jahan, funcionária de uma indústria têxtil em Daca, testemunhou outras mulheres tentando se livrar do assédio a bordo de ônibus.

“Algumas garotas ficam com raiva e protestam. Essa reação leva a mais assédio, então eu apenas os ignoro (os abusadores). Não posso protestar contra tudo, porque viajo sozinha e sou uma garota”, ela contou à BBC.

Uma recém-construída estrada de quatro pistas na capital foi apelidada de “rodovia da morte”, por conta da alta freqüência dos acidentes fatais.

No campo, muitas mulheres também sofrem por terem que caminhar sozinhas em vias perigosas.

Um estudo do Banco Mundial notou ainda incidentes com mulheres são alvejadas por pedras jogadas de caminhões.

Mesmo assim, bengalesas como Tasnim Noorin, uma jornalista em Daca, preferem caminhar a sofrer o assédio no transporte coletivo.

“Mesmo que conseguisse entrar (nos ônibus), enfrentaria muitas situações indesejadas. Para evitar os transtornos, eu simplesmente caminho”, disse.