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Para analistas estrangeiros, saída de Palocci dificulta ação do governo no Congresso

Foto: Paulo Carvalho/Casa Civil/PR

Governo poderá enfrentar mais resistência a reformas sem Palocci

Com a substituição do ex-ministro-chefe da Casa Civil Antonio Palocci pela senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), o governo passará a enfrentar mais dificuldades no processo de articulação política com membros do Congresso Nacional, segundo analistas políticos estrangeiros ouvidos pela BBC Brasil.

De acordo com os especialistas, a mudança, apesar disso, não deve indicar uma ruptura na atual política econômica da presidente Dilma Rousseff, nem provocar uma guinada ideológica no governo.

Christopher Garman, diretor de América Latina e analista de Brasil da consultoria com sede em Washington Eurasia Group, vislumbra maior dificuldade do governo em aprovar reformas como a tributária e a da Previdência. “Palocci era uma figura forte que defendia essas propostas. Com ele por perto, seria mais fácil a aprovação.”

Já o professor e diretor do Instituto Brasil da universidade King’s College, de Londres, Anthony Pereira, acredita que as dificuldades não se agravam nem diminuem de forma significativa com a ausência do então homem forte de Dilma.

“Seria difícil adotar essas reformas de qualquer maneira por conta dos diferentes grupos de pressão que atuam no Brasil. Provavelmente, a ministra terá menos habilidade para conduzi-las, mas até com Palocci já era difícil realizar todas as mudanças pretendidas pelos mercados e pelo setor empresarial.”

Garman acredita, no entanto, que apesar da provável continuidade em termos econômicos, é provável que se sinta um impacto negativo no médio prazo, devido ao que chama de surgimento de uma “agenda negativa”, por parte do Congresso.

“Nos próximos seis meses, o governo deve sofrer uma queda em sua aprovação, porque ao longo deste ano, deveremos ter um aumento da inflação com um crescimento econômico menor. E isso tenderá a acentuar dificuldades que o governo já vem tendo em sua base no Congresso”, afirma.

“Em um contexto de queda de aprovação, deve crescer a pressão por medidas que possam provocar mais gastos. Com um ministro forte ao lado da presidente, seria mais provável conseguir coibir essas práticas.”

Corrupção

Mesmo com o fato de Palocci já ter sido pivô de outro escândalo – ele deixou o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, por envolvimento em um escândalo de quebra de sigilo –, os analistas acreditam que a imagem brasileira no que diz respeito ao combate à corrupção não sai mais desgastada internacionalmente.

“Claro que a queda de um ministro por acusação de tráfico de influência não ajuda na imagem de combate à corrupção. Mas ao mesmo tempo existe um reconhecimento de que as instituições brasileiras estão mais transparentes”, afirma Garman.

“Você pode argumentar que houve indício formal de tráfico de influência, mas a pressão pública sofrida pelo ministro em ter uma consultoria política enquanto era deputado é um sinal saudável de maturidade dos órgãos fiscalizadores”, diz o analista.

“É um sinal que a tolerância com esse tipo de atividade está diminuindo. E foram práticas que não estavam ligadas ao governo, logo não há como acusar o governo de ter sido corrupto.”

Para Pereira, a crise que levou à demissão de Palocci é uma questão local que não tem necessariamente implicações internacionais.

“Ela envolve a necessidade de reforma política e a composição da aliança entre os diferentes partidos que sustentam o governo. A crise tem muito mais a ver com essas questões locais do que com a imagem do Brasil no exterior e a confiança do investidor no mercado brasileiro.”

Economia

Em termos econômicos, Peter Hakim, presidente-emérito do instituto de pesquisas Inter American Dialogue, com sede em Washington (EUA), afirma que “não deveremos ver grandes surpresas”.

“Não creio que a saída de Palocci vá mudar muito o tom dado por Dilma, que é o de manter o tipo de economia saudável que o Brasil conquistou em pouco mais de uma década”, disse o analista à BBC Brasil.

Antes de assumir a Casa Civil do governo Dilma, Palocci foi ministro da Fazenda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2006. Próximo dos mercados e considerado de perfil conservador, ele foi tido como principal fiador da política econômica de Lula.

“A fórmula de sucesso lançada por Lula, a de garantir que a economia siga crescendo, criar empregos e, ao mesmo tempo, aumentar o gasto com programas de combate à pobreza, mas sem destinar exorbitâncias a isso, vem sendo seguida por Dilma”, afirma Hakim.

Pereira também acredita que a nova ministra adotará uma linha semelhante à do antecessor.

“Creio que haverá continuidade. É verdade que Palocci foi associado a uma linha menos intervencionista e mais pró-mercado. Mas ainda há outros representantes dessa linha no governo”, afirma.

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