'Triste', Dilma elogia Palocci; ex-ministro diz que sai para 'preservar diálogo'

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Image caption Ex-ministro disse que seu trabalho foi prejudicado pelo jogo político

A presidente Dilma Rousseff teceu nesta quarta-feira diversos elogios ao ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci em discurso na cerimônia de posse da sucessora dele, Gleisi Hoffmann, em Brasília. Palocci, por sua vez, disse que deixou o governo para preservar o diálogo político.

"Estaria mentindo se dissesse que não estou triste", afirmou a presidente, em seu discurso.

"Tenho muitos motivos para lamentar a saída do ministro Antonio Palocci. Motivos de ordem política, pelo papel que ele desempenhou na minha campanha; motivos de ordem administrativa, pelo papel que ele tinha, e teria, no meu governo; e motivos de ordem pessoal, pela relação de amizade que construímos ao longo do tempo em que trabalhamos juntos."

"Agradeço do fundo do coração ao meu amigo Antonio Palocci pelo que fez para mim, para o governo e para o Brasil."

Considerado o principal articulador político de Dilma Rousseff, Palocci pediu demissão na tarde da terça-feira, três semanas após uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo revelar que seu patrimônio crescera ao menos 20 vezes entre 2006 e 2010, quando exerceu mandato de deputado federal.

Elogios a Gleisi

A presidente também elogiou a nova ministra, Gleisi Hoffmann. "Um amigo deixa o governo, e uma amiga assume o seu lugar", disse Dilma. "Estou satisfeita com a solução que encontrei para assegurar a imediata continuidade do trabalho."

Segundo a presidente, Gleisi “se notabilizou com competência como administradora e gestora, com sensibilidade social e inegável capacidade de articulação política."

Dilma disse que a nova ministra, em seu mandato de quatro meses como senadora, assumiu suas posições com "destemor" e mostrou "firmeza na defesa do governo".

“É mais uma mulher no governo da primeira presidenta na história do Brasil, e é mais uma mulher competente, uma mulher firme e uma mulher capaz", disse.

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A presidente fez uma breve crítica aos partidos de oposição. "É do jogo democrático que enfrentemos a oposição, quase sempre ruidosa, nem sempre justa. A pressão e as críticas são da regra democrática e não vão inibir a ação do meu governo. Jamais ficaremos paralisados diante de embates políticos", afirmou.

Estiveram presentes à cerimônia o vice-presidente Michel Temer, o presidente do Senado, José Sarney, ministros e diversos parlamentares.

Despedida de Palocci

Antes de seu discurso de despedida, também na cerimônia em que Gleisi foi empossada, Palocci foi aplaudido de pé. Ele afirmou que não queria fazer da cerimônia um momento triste. "A vida é uma luta permanente, e não costumo me abater pelas pedras no caminho", disse.

O ex-ministro afirmou que a política é "naturalmente conflituosa" e que, durante os pouco mais de cinco meses em que permaneceu no cargo, procurou "respeitar o contraditório, ouvir mais do que falar, trabalhar mais do que me manifestar".

Palocci disse que a decisão da Procuradoria-Geral da República, que arquivou o pedido de investigação sobre seu aumento patrimonial, endossou sua defesa. "Trabalhei dentro da mais estrita legalidade, respeitando os padrões éticos que se impõem aos homens públicos."

Ainda assim, disse que o mundo político caminha em ritmo diferente do mundo jurídico, e afirmou que as suas atividades foram prejudicadas pelo ambiente político. "Se entrei para ajudar a construir o diálogo, saio para ajudar a preservá-lo", disse.

Palocci agradeceu à presidente Dilma e desejou boa sorte à sua sucessora. "Levo desse período apenas as boas lembranças. Saio com paz de espírito, de cabeça erguida, honrando o meu trabalho, a minha família e os meus companheiros", concluiu.

Gleisi Hoffmann, por sua vez, afirmou em seu discurso de posse que entra na Casa Civil com "muita humildade, fé em Deus, gratidão e senso de responsabilidade".

Gleisi lembrou que assume função anteriormente por Dilma. "A presidenta é um exemplo para mim e para as mulheres do nosso país. Meu objetivo é realizar um trabalho de futuro e de esperança, como o que vem sendo realizado", disse.

A ministra afirmou que conta com a "colaboração e companheirismo" de todos os ministros para encarar "o peso desta agenda".

Cumprimentos

A cerimônia reuniu centenas de pessoas e lotou o Salão Oeste no Palácio do Planalto.

Após o evento, Gleisi e Palocci foram cercados por dezenas de congressistas, ministros e assessores para cumprimentos.

Antes de deixar o salão, Palocci ainda foi rodeado por jornalistas e voltou a dizer que deixa o cargo com a consciência tranquila.

Gleisi, por sua vez, parecia assustada com o empurra-empurra em seu entorno e com os flashs ininterruptos dos fotógrafos.

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Entenda as denúncias contra Palocci

Em certo momento, a ministra Tereza Campello (Desenvolvimento Social) tentou se aproximar da nova colega. “Quero cumprimentá-la, mas está difícil”, queixou-se, bem-humorada.

Por fim, Gleisi acabou por caminhar em sua direção e, ao ser parabenizada por Campello, disse-lhe: “vou precisar muito da sua ajuda”.

Após a saída de Gleisi e Palocci, os repórteres voltaram-se aos outros ministros e líderes do governo presentes. Todos eram confrontados com a mesma pergunta: com a saída de Palocci, principal articulador político do governo, e sua substituição por Gleise, política com perfil mais técnico, não seria criado um “vácuo político” no governo?

Para deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo na Câmara, não. “Em qualquer governo, o ministro-chefe da Casa Civil tem um peso especial. Mas o responsável maior pela articulação política nesse formato de governo que tivemos com o Lula e agora temos com a Dilma é o ministro das Relações Institucionais, (Luiz Sérgio).”

Para o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, a tomada de posse de Gleisi simboliza uma mudança no “perfil do governo”. “Gleisi vai ser a 'Dilma' da Dilma, a gestora do governo. Essa função de gestão acelera políticas públicas.”

Questionado se a saída de Palocci fragilizaria a articulação política do governo, no entanto, Mercadante respondeu: “Isso a presidenta saberá resolver e equacionar, como tem demonstrado. Ela sabe administra politicamente, sabe escolher politicamente, sabe organizar a orquestra.”

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