Tédio em ação

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Os filmes de ação foram os piores a que assisti na vida. Tantos deles disputam os 10 primeiros lugares que é impossível organizar uma lista.

Perseguição com automóveis é condição número 1. Há meia dúzia de perseguições geniais e milhares insuportáveis. Houve um tempo que tinha uma reação quase alérgica. Começava a perseguição e eu corria para a saída.

Logo depois, quase empatados com os filmes de ação, estão os de gangues e guerras com tiroteios e lutas à noite.

E há os pornográficos. Vi dois inteiros. O primeiro foi Behind the Green Doors. Levei meus pais e meus tios recém-chegados de BH para um choque cultural. Os tios queriam sair na primeira cena. Meu pai ponderou: "Calma. Vai ver que amansa”. Não amansou.

E vi Garganta Profunda. É comédia ou tragédia?

Esta semana dois dos mais ativos e influentes críticos do New York Times estão em guerra contra um dos mais veneráveis críticos americanos Richard Schickel, da revista Time.

Os do NYT, Manohla Dargis e A. O. Scott, defendem os filmes lentos, longos, entediantes como Tree of Life que ganhou o festival de Cannes deste ano. O crítico da Time acha o filme pretensioso e argumenta que cinema não é arte. É entretenimento. Uma briga pública rara, nada entediante, entre críticos.

Da minha juventude os dois mais mais lentos que vi e esqueci foram O Ano Passado em Marienbad, que não entendi e Hiroshima Mon Amour (ambos do Alain Resnais), que fui ver na expectiva de sacanagem. Foi pouca e entendi menos ainda.

Às vezes saio de filmes sem entender nem a metade, ou pelo roteiro ou pela língua. Nos filmes ingleses, escoceses ou irlandeses, com gíria ou dialeto regional, acompanho pelas imagens ou puxo um cochilão. Deveriam ser todos legendados como os escandinavos, russos e asiáticos, campeões em filmes lentos.

Quando vou à “torre” da Union Square, com uns vinte cinemas confortáveis e filmes comerciais, raramente saio satisfeito.

Quando vou ao Cinema Village ou ao Quad, com cinemas pouco maiores do que minha sala e telas pouco maiores do que uma TV de 50 polegadas, as gratificações são frequentes.

Há pouco tempo vi The Gift to Stalin, um filme de 2008, do Cazaquistão, que entrou e saiu de cartaz, quase escondido. Em preto e branco, devagar, inesquecível. Não acho o filme nem na internet. Os agentes da velha União Soviética devem ter dado mais um sumiço nos adversários.

Esta coluna, originalmente, seria toda sobre Christopher Plummer que, aos 81 anos transmite uma energia infanto-juvenil no filme Beginners, no papel de um viúvo que perdeu a mulher aos 75 anos, confessa para o filho que é e sempre foi gay , arranja um namorado e, com a solidariedade do filho, cai na gandaia. Mas, nem mesmo quando o personagem confronta um câncer incurável, o filme cai na pieguice ou na auto-comiseração.

Beginners está promovido como uma comédia romântica porque além da relação do velho Christopher com o jovem namorado, há o romance do filho com a bela e complicada namorada francesa e a própria relação de amor entre pai e filho.

O roteiro tem detalhes tão preciosos que você sente uma conexão auto-biográfica e de fato o diretor e roteirista Mike Mills se inspirou na própria vida. Este é o segundo filme dele.

Apesar de um elenco excepcional, Ewan McGregor, no papel do filho e Melanie Laurent, da namorada, teve problemas de distribuição nos Estados Unidos. Espero que chegue ao Brasil, mas filme sobre gay velho e canceroso assusta o público.

As comédias atraem, mas Beginners não é ré-rá-rá, nem é para principiantes. Há momentos hilariantes, mas quem vai ver o filme para rir pode sair decepcionado. Mexe mais com a cabeça e com o coração do que no fígado.

Quase nunca vou a um filme pelos atores. Christopher Plummer é uma atração rara e, nesta idade, como o personagem que ele encarna, pode viver de três meses a uma década. Ou mais, tomara.

Ele fez centenas de personagens, de Shakespeare a desenhos animados, do mais vil ao mais puro, mas sua fama maior vem do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde que ele detestava, como conta na biografia In Spite of Myself. "No set havia mais som de guerra do que de música."

Quase 46 anos depois, ele é um noviço rebelde, num filme lento, longo, entediantemente inteligente e inesquecível.