Tabelinhas e tabelões

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eu sempre tive dificuldades com a tabela periódica. A começar pelo nome da bruta: num colégio era “tábua periódica”. Levei pau no fim de ano em três matérias, não havia chance de segunda época, portanto tive que ir para outro colégio. Era uma época em que os colégios, ao menos o que fora meu, o Mello e Souza, não aceitava repetentes. Chato, mas hoje vejo que estavam certos.

Fui então para o Liceu Franco-Brasileiro, logo ali no comecinho da rua das Laranjeiras, onde fiz o resto do Ginásio e o Clássico. Lá me ensinaram que era “tabela” e não “tábua periódica”.

O fato da coisa toda não fazer o menor sentido para mim era secundário. Minha técnica escolar adotava o sistema então chamado de “decoreba”, no que eu não era de todo ruim. Mas só dava para decorar, é lógico, aquilo com que eu tivesse um mínimo de intimidade.

A única tabela que me interessava na época era a do campeonato carioca de futebol, em tempos pré-Maracanã, quando turno, para dar um exemplo, de Botafogo contra Olaria era disputado no campo do Olaria, o chamado, e temido, “alçapão de Bariri”, e o returno no campo de meu time, o “glorioso”, o da “estrela solitária”, o Botafogo, em General Severiano, que ficava pouco além do túnel novo, o “mata-paulista”, para ficar no território dos apodos, já que, apesar de ser mão única, tinha bonde fazendo suas prosaicas viagens, na contramão.

Eu me afastei, como me é de hábito, do assunto principal. Preferi, ao invés, relembrar a tabela que eu não precisava decorar, apenas consultar e que vinha como brinde com o jornal esportivo que eu comprava toda segunda-feira, “O Campeão” (Cr$ 1,50).

Para futebol, eu não precisava recorrer à técnica da “decoreba”: a escalação dos times me vinha aos jovens lábios com uma naturalidade que nem a aula de Ciência, Química ou Matemática (para mim, as matérias mais assustadoras) poderiam pensar em obter.

Exemplifico e escalo, de bate-pronto, sem recorrer a engenho de busca nenhum, a equipe do Botafogo, campeã em 1948: Oswaldo “Baliza”, Gerson e Santos (ainda não ganhara o Newton); Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Otávio e Braguinha. Assim mesmo. 1, 2, 3 e 5. Esse o ritmo usado para dar oralmente a escalação dos times. Paro na escalação do Botafogo, graças a Deus nada a ver com “Fogão”. Como em nossa mania de aumentar tudo, até mesmo número de estados do país, juntamente com nomes próprios (Tapajozão?).

Por ter me metido a divagar sobre coisas passadas, que é muito mais gostoso para mim, do que falar sobre essa sórdida besteirada em que nos metemos, deixei de lado a Tabela Periódica. Amuado, fazendo beiço, e arrastando lento os pés, como um jogador expulso de campo (por apito e gesto eloquente de “sua Senhoria”, o juiz, também chamado de árbitro nas alturas das cabines de transmissão radiofônicas, que não recorria a essa novidade científica do cartão vermelho), deixo o tapete verde e volto, de uniforme colegial e mala surrada às costas, ao colégio e sua Tábua ou Tabela Periódica.

Sinto estar aborrecendo-o, distinto leitor, que, desocupado feito eu, chegou até este ponto do besteirol que aprontei para hoje.

Eu nunca mais me preocupei com a Tabela Periódica (conferi no Houaiss, ele prefere assim) nem ela comigo. No entanto, como eu, ela tem seu passado, maior mesmo que o meu, mas juro que menos interessante, e capaz mesmo de servir para alguma coisa, que eu, com esta minha idade e miopia, não consigo mais distinguir.

Aí estão tolices infinitas ocupando espaço nos meios de comunicação de massas; livros eletrônicos, nuvens de iSteve iJobs (uai, ele não gostar do botar um “izinho” no começo de seus produtos?), cinema e até mesmo televisão em 3D. O resto pode ser encontrado num Facebookou Twitter da vida. Bem feito para todos envolvidos no processo, saliento e praguejo.

Finalizemos, afinal, com o que eu deveria ter me ocupado da primeira à última linha (calma, ela já vem aí): há dois novos elementos que foram acrescentados à Tabela Periódica e ambos ainda não batizados. Pelo que entendi, os dois não chegam a durar um segundo, o que deve ser bom para todos nós.

As equipes que mexem com essas asneiras, sujando a mente e as mãos com átomos e moléculas, anunciam com o mesmo estardalhaço de quem bolou a TV em HD que os dois novos e fugazes elementos são os mais pesados existentes – e que a terra lhes seja leve, murmuro com desdém e contida irritação.

Só falta agora, comunicam as autoridades periódicas, dar nomes à dupla caloura. Preferem em latim, os pedantes, pois ambos elementos ficam entre o Copernicium (número atômico 112 (?), abreviado para Cn, e o Ununquadium (número atômico 114), vulgo Uuq. Já se sugeriu, respectivamente, Ununtrium (número atômico 113), Uut, e Ununpentium (número atômico 115), Uup.

Por motivos de assonância ou pura birra ambos foram rejeitados. As entidades que mexem com essas sem-vergonhices voltam-se agora pedindo para que o povão (olha o aumentativo aí!) os ajude. Não garantem recompensa financeira. Só a glória fugaz dos dois novatos estreando camisa de elemento pesado (quer dizer, vão jogar na defesa).

Eu paro por aqui pois sou capaz de me entediar comigo mesmo fácil, fácil. Mas não sem antes deixar minha sugestão para a pesada dupla: que tal Renatão e Buzãfã?