Número global de pessoas deslocadas é o maior em 15 anos, diz ONU

Crianças vítimas de deslocamento interno no Afeganistão, em foto de 2010 (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Afeganistão e Iraque são os países com o maior número de pessoas forçadas a deixar suas casas

A agência de refugiados da ONU afirmou que 43,7 milhões de pessoas haviam sido forçadas a deixar suas casas no mundo até o final de 2010 – o maior número em 15 anos, e um total superior a toda a população da Argentina.

Essas pessoas foram obrigadas a fugir de conflitos armados, violência, perseguição, violações de direitos humanos e desastres naturais.

Os dados constam do relatório anual do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados(Acnur), divulgado nesta segunda-feira, quando é marcado o Dia Mundial de Refugiado.

Dessas 43,7 milhões de pessoas, 27,5 milhões foram deslocadas internamente (não cruzaram a fronteira de seus países), 15,4 milhões têm o status de refugiadas e mais de 800 mil são solicitantes de asilo (pessoas que pediram proteção internacional, mas ainda não são consideradas refugiadas).

Os dados são referentes até 31 de dezembro de 2010 – não contabilizam, por exemplo, os deslocados pelos recentes conflitos em países árabes como Líbia, Tunísia e Síria, ou na Costa do Marfim.

‘Desequilíbrio’

O relatório destaca que 80% dos refugiados do mundo estão abrigados em países em desenvolvimento (muitas vezes, países vizinhos dos que vivem conflitos internos).

Em comunicado, o Acnur diz que esse dado “revela o grande desequilíbrio no apoio internacional às pessoas que foram forçadas a se deslocar”, lembrando que “cresce o sentimento antirrefugiado em muitos países industrializados” (em aparente referência à Europa, que tem tentado limitar a entrada de imigrantes).

O Paquistão, o Irã e a Síria têm as maiores populações de refugiados do mundo (1,9 milhão, 1,07 milhão e 1,005 milhão, respectivamente).

“O Paquistão sente o maior impacto econômico dessa situação, com 710 refugiados para cada dólar de seu PIB per capita”, afirma o comunicado da agência.

“Temores de que fluxos de refugiados em países industrializados aconteçam são amplamente divulgados e equivocadamente confundidos com questões migratórias”, declarou Antonio Guterres, o alto comissário das Nações Unidas para refugiados. “Enquanto isso, a responsabilidade de lidar com a questão recai sobre os países menos desenvolvidos.”

Afeganistão e Iraque

Segundo o Acnur, quase a metade de todos os refugiados sob responsabilidade da agência são de nacionalidades afegã ou iraquiana.

Conflitos duradouros como esses forçam exílios mais longos. Em 2010, dos refugiados sob mandato do Acnur, cerca de 7,2 milhões de pessoas estavam há mais de cinco anos longe de seus locais de origem.

Entre os deslocados há ainda 15,5 mil crianças desacompanhadas, a maioria vinda da Somália e do Afeganistão.

Outros países considerados grandes geradores de refugiados são República Democrática do Congo, Mianmar, Colômbia e Sudão.

Uma mudança significativa observada pela agência da ONU em 2010 é que um número expressivo de deslocados internos – mais de 2,9 milhões de pessoas – voltaram para suas casas em lugares como Paquistão, República Democrática do Congo, Uganda e Quirguistão.

No caso do Brasil, estatísticas do Conare (Comitê Nacional para Refugiados) apontam que o país abriga atualmente 4,4 mil refugiados de 77 nacionalidades. Em sua maioria são angolanos, colombianos, congoleses, liberianos e iraquianos que se exilaram de seus países.

Para comemorar o Dia do Refugiado, o Acnur criou uma campanha chamada “Calce os sapatos dos refugiados”, estimulando as pessoas a se colocar na situação das pessoas obrigadas a se deslocar.

Notícias relacionadas