Saída do Afeganistão é mais arriscada do que o esperado, diz comandante dos EUA

Soldados americanos e canadenses durante missão em candahar, Afeganistão (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption EUA querem tirar dez mil soldados do Afeganistão até o fim do ano

O chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, almirante Mike Mullen, disse nesta quinta-feira que o plano de retirada das tropas americanas do Afeganistão apresentado pelo presidente Barack Obama é mais “agressivo” e “arriscado” do que ele gostaria, mas que apóia a decisão.

“Eu não pretendo discutir detalhes do aconselhamento confidencial que prestei a respeito dessas decisões. Como eu já disse, eu as apóio”, afirmou Mullen, em testemunho à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos Representantes (deputados federais).

“O que posso dizer a vocês é que as decisões do presidente são mais agressivas e incorrem em maior risco do que eu estava a princípio preparado para aceitar”, disse.

Em um pronunciamento na Casa Branca na noite de quarta-feira, transmitido ao vivo pela TV, Obama anunciou a retirada de 33 mil soldados americanos do Afeganistão até setembro de 2012.

Segundo Mullen, uma maior força militar por mais tempo é “sem dúvida, o caminho mais seguro”, mas não necessariamente a melhor opção.

“No fim, somente o presidente pode realmente determinar o nível aceitável de risco que devemos correr. E acredito que ele fez isso”, afirmou.

O comandante disse ainda que a estratégia americana no Afeganistão, contra o Talebã e a Al-Qaeda, está funcionando.

Solução política

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse em depoimento à comissão de Relações Exteriores do Senado que os Estados Unidos iniciam a retirada das tropas em uma posição de força e acreditam ser possível encontrar uma solução política para o conflito no Afeganistão.

Hillary disse que os Estados Unidos mantêm “uma ampla gama” de contatos em diversos níveis no Afeganistão e na região, inclusive contatos “muito preliminares” com o Talebã.

“Não é um negócio agradável, mas é necessário”, afirmou a secretária.

“Com (o líder da rede Al-Qaeda, Osama) Bin Laden morto e a enorme pressão sobre a liderança remanescente da a Al-Qaeda, a opção diante do Talebã é clara: fazer parte do futuro do Afeganistão ou enfrentar um ataque implacável.”

O plano de Obama, porém, foi criticado por alguns senadores. Em um discurso no plenário do Senado, o republicano John McCain, adversário derrotado por Obama nas eleições de 2008, disse que o plano de retirada nega aos comandantes militares americanos a capacidade de derrotar um inimigo enfraquecido.

“Estou muito preocupado que a decisão do presidente represente um risco desnecessário ao progresso que fizemos até agora, à nossa missão e a nossos homens e mulheres de uniforme”, disse.

Plano

A estratégia delineada por Obama prevê a retirada mais rápida e de um número maior de soldados do que o aconselhado por comandantes militares, que temem que uma saída brusca das tropas possa colocar em risco os avanços obtidos até agora no combate ao grupo Talebã e à rede Al-Qaeda.

O presidente confirmou que a retirada começa no próximo mês e anunciou que até o fim deste ano 10 mil soldados já terão voltado para casa.

Esses 33 mil soldados representam em torno de um terço dos cerca de 100 mil militares americanos atualmente no Afeganistão, e haviam sido enviados ao país por Obama no fim de 2009, para reforçar às operações no país.

O presidente não deu detalhes sobre os planos para retirar os cerca de 68 mil soldados americanos que permanecerão em solo afegão após setembro do ano que vem.

A decisão foi anunciada em um momento em que cresce a impaciência dos americanos em relação a uma guerra que já dura quase 10 anos e custa mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 3,1 bilhões) por semana aos cofres do país.

A pressão pela retirada das tropas aumentou ainda mais após a morte de Osama Bin Laden, no início de maio, em uma operação militar americana no Paquistão.

A situação é agravada ainda pela lenta recuperação econômica dos Estados Unidos, que enfrentam déficit recorde de US$ 1,4 trilhão (cerca de R$ 2,2 trilhões) no orçamento, o risco de ultrapassar o limite da dívida pública, que já atingiu o teto de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,7 trilhões), e a necessidade de cortar gastos.

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