México ainda está na briga pela liderança regional com o Brasil, diz ‘FT’

O presidente do México, Felipe Calderón, e o ex-presidente Lula durante conferência no México nesta semana Direito de imagem Reuters
Image caption Para jornal, Lula se mostrou "grande político", o que líderes mexicanos, como Calderón, não foram

Após uma década na qual passou de maior economia latino-americana a observador do protagonismo brasileiro na região, o México possui hoje “as bases assentadas para surpreender muitos”, na avaliação de artigo publicado nesta sexta-feira pelo jornal britânico Financial Times.

O texto, intitulado “Com tudo ainda a jogar na disputa com o Brasil”, é assinado pelo ex-correspondente do jornal no México, John Authers, e faz parte de um caderno especial de quatro páginas sobre investimentos no país.

Authers comenta que há uma década, quando chegou ao país, o debate em voga na época, sobre quem era o verdadeiro líder econômico da América Latina, “parecia desnecessário para os mexicanos”.

Na ocasião, o país se mostrava totalmente recuperado da chamada Crise Tequila, de 1994, havia passado por uma transição democrática que acabou com mais de 70 anos de governos ininterruptos do PRI (Partido Revolucionário Institucional), tinha um sistema bancário robusto e era apontado como um dos principais mercados emergentes do mundo.

O artigo observa porém, que “a história da rivalidade entre o Brasil e o México nos dez anos seguintes é dolorosa, ao menos para aqueles que gostam do México”.

O texto observa que o Brasil hoje é parte do grupo BRIC e aparece apenas atrás da China na preferência dos investidores entre os países emergentes.

'Políticos errados'

O jornal aponta uma série de motivos para essa diferença, entre elas a debilidade das instituições políticas mexicanas e a “escolha de políticos errados” em referência aos dois últimos presidentes, Vicente Fox e Felipe Calderón.

Outro problema, segundo o Financial Times, foi o aumento da dependência mexicana em relação aos Estados Unidos após o estabelecimento do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte).

Mas a emergência da China e a entrada do país asiático à Organização Mundial do Comércio (OMC) levou as empresas mexicanas a perder mercado de exportação para as chinesas. Enquanto isso, o Brasil se beneficiou do crescimento chinês e do consequente aumento da demanda por suas commodities.

O artigo também afirma que o Brasil tem uma cultura política e de negócios melhor do que o México, controlado por oligarquias e oligopólios que reduzem “cronicamente” a competitividade da economia mexicana.

Para o autor, porém, "talvez a mais profunda razão pela qual o México ficou para trás” está relacionada à aceitação, com o Nafta, de que suas empresas seguissem as normas para o resto da América do Norte".

“Companhias que agora tinham a chance de competir nos Estados Unidos ou no Canadá tinham que se comportar como seus competidores americanos e canadenses”, observa o artigo.

Recessão 'terrível'

Por fim, o texto comenta que, como resultado da crise de 1994, mais de 90% do sistema bancário do país foi parar em mãos estrangeiras, o que por um lado fortaleceu o sistema e permitiu a adoção de políticas monetárias que conseguiram conter a inflação, mas por outro deixou o país altamente vulnerável à recente crise nos bancos americanos.

O jornal observa que a recessão de 2009 no México foi “terrível”, com uma contração de mais de 9%. “Enquanto isso, o Brasil e os grandes produtores sul-americanos de commodities sofreram apenas uma leve e passageira contração”, comenta.

Apesar de todos os problemas, o artigo prevê um futuro melhor para os mexicanos. O jornal conclui dizendo que “após anos de ortodoxia macroeconômica, o México tem as bases assentadas para surpreender muitos”.

Para o autor do texto, o México precisa ainda “que seu poderoso vizinho do norte tenha sucesso e que seus políticos rompam uma década de impasses, mas pode ainda haver algo para debater”.

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