Líderes do Khmer Vermelho vão a julgamento no Camboja; saiba mais

O número dois do Khmer Vermelho, Nuon Chea, em julgamento, no Camboja. AP Direito de imagem AP
Image caption O número dois do Khmer Vermelho, Nuon Chea, responde por uso de violência durante o regime

Começou nesta segunda-feira, no Camboja, o julgamento de quatro importantes integrantes do Khmer Vermelho, grupo que governou o país durante quatro anos e é responsabilizado pela morte de quase dois milhões de pessoas.

Nuon Chea, Khieu Samphan, Ieng Sary e Ieng Thirith são acusados de genocídio e crimes contra a humanidade ocorridos entre 1975 e 1979.

Sob o comando de seu líder, Pol Pot, o Khmer Vermelho forçou milhões de habitantes das cidades a trabalhar em fazendas comunitárias no interior.

O experimento social teve um custo alto, provocando a morte de famílias inteiras, vítimas de execuções, fome, doenças e exaustão, em um dos capítulos mais sangrentos da história do século 20.

Filosofia 'Comunista'

O Khmer Vermelho tem suas origens na década de 1960, como um braço armado do Partido Comunista de Kampuchea (como os comunistas chamavam o Camboja).

Com presença em regiões remotas de selva e em montanhas no nordeste do país, o grupo teve pouco impacto inicialmente.

Ele passou a atrair mais apoio em 1970, quando formou uma coalizão com o chefe de Estado Norodom Sihanouk, deposto por um golpe militar de direita.

Em uma guerra civil que durou cinco anos, a coalizão aumentou o seu controle sobre o interior do país.

Em 1975, o Khmer Vermelho finalmente assumiu o controle da capital do país, Phnom Penh, e da nação.

Durante o período em que viveu no nordeste do país, Pol Pot havia sido influenciado pelas tribos que habitavam as montanhas vizinhas.

Autossuficientes, as tribos viviam de forma comunitária, não usavam dinheiro e não tinham sido influenciadas pelo Budismo.

Quando chegaram ao poder, Pol Pot e seus homens passaram rapidamente a implementar seu plano de transformar o Camboja – agora rebatizado como Kampuchea - em uma “utopia agrária”.

Após determinar que o país deveria começar de novo do "ano zero", o Khmer Vermelho isolou o Camboja do resto do mundo, começou a esvaziar as cidades, aboliu o dinheiro, a propriedade privada e a religião, e criou coletivos rurais.

Qualquer pessoa tida como "intelectual" era executada. Os que usavam óculos ou falavam um idioma estrangeiro eram frequentemente condenados.

Milhares de integrantes da classe média educada foram torturados e executados em centros especiais.

O mais notório desses centros foi a prisão S-21 em Phnom Penh, Tuol Sieng, onde cerca de 17 mil homens, mulheres e crianças foram aprisionados durante os quatro anos em que o grupo esteve no poder.

Outros milhares morreram de doenças, fome e exaustão, forçados a trabalhar por membros do Khmer Rouge.

Abertura

Em 1979, após violentos confrontos nas fronteiras do Camboja, o governo do Khmer Vermelho foi finalmente deposto por tropas vietnamitas.

Membros do alto escalão do partido fugiram para regiões remotas. Eles permaneceram ativos durante um período mas foram, gradualmente, perdendo o poder.

Nos anos seguintes, à medida que o país reabria suas portas à comunidade internacional, os horrores cometidos pelo grupo começaram a emergir.

Sobreviventes contaram suas histórias a plateias chocadas. Em 1980, a produção de Hollywood Killing Fields - Os Gritos do Silêncio levou ao mundo o drama vivido pelas vítimas do Khmer Vermelho.

Em um julgamento realizado em 1997, Pol Pot foi denunciado por seus ex-aliados e condenado à prisão domiciliar em sua casa na selva.

Menos de um ano depois, no entanto, ele morreu, negando a milhões de pessoas afetadas por seu governo brutal a possibilidade de justiça.

Entre os quatro líderes sob julgamento no tribunal cambojano está o "número dois" do governo de Pol Pot, Nuon Chea.

Os acusados negam todas as acusações, e o julgamento, que tem o apoio da ONU, deve durar anos.

No ano passado, outro membro do grupo, Kaing Guek Eav, conhecido como Camarada Duch, foi condenado a 35 anos de prisão.

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