Brasileiro no FMI diz que escolha de Lagarde foi ‘insatisfatória’

Ministra francesa foi escolhida para chefiar o FMI. Foto: Getty Images Direito de imagem Getty images
Image caption Francesa derrotou Agustín Carstens, representante dos emergentes, na disputa pela chefia do Fundo

O economista Paulo Nogueira Batista, que representa o Brasil e outras oito nações sul-americanas e caribenhas no comitê executivo do FMI, criticou, em entrevista à BBC, a escolha da ministra francesa das Finanças, Christine Lagarde, para chefiar o Fundo.

Batista qualificou de “altamente insatisfatório” o processo que resultou na eleição de Lagarde em detrimento do representante dos países emergentes na disputa, o presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens.

“Era uma eleição predeterminada”, afirmou o economista. “Enquanto os países europeus permanecerem unidos em torno de um nome único, e houver a percepção de que os Estados Unidos concordarão com ele – e isto tem sido assim desde o início –, todo o processo será muito desequilibrado.”

A escolha de Lagarde, 55 anos, confirmou a tradição segundo a qual um europeu ocupa a direção do FMI, enquanto o Banco Mundial fica nas mãos de um americano. Ela será a 11ª indicada europeia e a primeira mulher a chefiar o Fundo.

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Para o representante brasileiro no FMI, o órgão tem “uma distribuição muito distorcida do poder de voto e isto permite a continuidade desta regra arcaica”.

Nogueira Batista disse que Carstens foi “muito corajoso” de entrar na disputa, “mas o fato é que nós (os países emergentes) estamos muito longe do que precisamos, que é uma eleição independente de nacionalidade”.

“Tínhamos muitos candidatos com potencial, incluindo candidatos de dentro dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas, no curto período entre a renúncia de Dominique Strauss-Khan e a seleção do novo diretor, era difícil convencer algum deles a se candidatar”, disse o economista.

“Especialmente quando tínhamos a percepção de que a Europa estava desesperada por manter a posição, aliás, contradizendo a declaração que fizeram em 2007, quando as autoridades europeias disseram que Dominique Strauss-Khan seria o último representante europeu a ser eleito segundo essa convenção arcaica.”

Dureza ou leniência

A substituição prematura de Strauss-Kahn foi anunciado pelo FMI em 20 de maio, depois que o então diretor-gerente do órgão foi obrigado a abrir mão do cargo, implicado em denúncias de agressão sexual e tentativa de estupro por uma camareira de hotel em Nova York.

Ele permanece em prisão domiciliar nos Estados Unidos enquanto aguarda julgamento.

Analistas concordam que o maior desafio a ser enfrentado pela nova diretora-gerente do FMI será lidar com a crise grega e o risco que ela representa para todas as outras economias interdependentes da zona do euro e da Europa em geral.

Para os críticos, o fato de ser proveniente de um país europeu é razão para desconfiar que a francesa possa ser leniente em relação ao remédio requerido para solucionar a crise grega.

Entretanto, para o economista Domenico Lombardi, membro do comitê executivo do FMI entre 2001 e 2005, esta é justamente uma vantagem de Lagarde em relação a qualquer outro nome proveniente de um país emergente.

“Ela vai estar em uma posição de conclamar seus colegas, os ministros das Finanças europeus, a agir de forma mais agressiva para solucionar a crise do euro”, opinou o especialista.

“Não apenas isto, ela também perseguirá uma nova rodada de reformas na governança do fundo e, como sabemos, são os países europeus que sairão perdendo em qualquer mudança nesse sentido.”

“Ela estará em melhor posição para pedir aos seus colegas europeus que abram mão de parte de seu poder de voto em benefício das economias emergentes” , disse Lombardi.

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