Blogueiro chinês vê ‘ponta de esperança’ com jornalismo cidadão no país

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Image caption Blog de Wang Xiaofeng traz mistura de críticas e comentários sobre a sociedade chinesa

O crescimento do jornalismo cidadão oferece “uma ponta de esperança” de abertura política da China, na avaliação de um dos mais influentes blogueiros do país, Wang Xiaofeng.

Aos 44 anos, Wang é o terceiro blogueiro mais lido entre os chineses, com 60 mil acessos diários, e foi apontado pela revista americana Time como um dos protagonistas do fenômeno que levou a publicação a eleger a chamada Web 2.0 como o Personagem do Ano em 2006.

Seus textos, publicados na internet desde 2004, são uma mistura de críticas e comentários sobre a sociedade chinesa.

Apesar de manter uma posição crítica sobre seu próprio público e se dizer desapontado com o modo de vida de seus leitores, Wang vê a possibilidade do aparecimento de novas formas de poder por meio do uso da internet.

Ele dá como exemplo os casos de cidadãos chineses que publicaram fotos e textos com denúncias de abuso de poder e que conseguiram resultados positivos.

Ele mesmo diz receber de dois a três telefonemas e emails ao mês pedindo ajuda para que denuncie algum crime ou exponha uma crise.

“Eu já estabeleci um sistema em que terceirizo a publicação de casos de injustiça para meus companheiros escritores e, em especial, jornalistas da mídia tradicional, já que não tenho tempo de investigar todas as denúncias”, disse ele à BBC Brasil.

Juventude acrítica

Wang pertence à geração que testemunhou as grandes transformações vividas pela China após a Revolução Cultural (ocorrida entre 1966 e 1976), quando Mao Tse-Tung promoveu a eliminação dos vestígios das culturas tradicional chinesa e estrangeira e basear a educação nacional nos valores comunistas expostos em seu Livro Vermelho.

“A minha juventude foi muito diferente da dos jovens de hoje; vimos a China sair da pobreza e se tornar o país que é atualmente. Estávamos aprendendo com o tempo e tínhamos muitas perguntas”, ele reflete.

O escritor responsabiliza o sistema de educação nacional pela letargia dos herdeiros da política do “filho único”, instaurada por Deng Xiaoping em 1978.

“A possibilidade de ter um só filho faz os pais colocarem todos seus esforços e esperanças sobre um único ser humano, no meio de um mundo todo de expectativas. É uma educação besta, e os jovens não têm mais o que respeitar”, critica.

Wang conta manter um contato estreito com os membros da geração pós-80, que formam a sua maior base de leitores (o escritor conduz pesquisas regulares sobre seus leitores e percebeu que 60% deles nasceram após 1985), e que procura conversar com eles sobre a sociedade chinesa.

“Eles não estão interessados em aprender. Estão na universidade e procuram educação superior por medo de enfrentar o mercado de trabalho, pois eles nunca foram obrigados a passar por dificuldades ou a fazer perguntas. Essa juventude olha para o professor e diz: por favor, me diga qual é a resposta certa para as perguntas. Eles não estão interessados em pensar por si mesmos”, observa.

Censura

No período em que se firmou como uma das principais vozes populares na internet do país, Wang teve seu blog afetado pela censura algumas vezes.

Segundo ele, seu site, www.wangxiaofeng.net, recebe telefonemas frequentes do departamento de informação chinês com pedidos para a retirada de posts do ar.

“Eles são bem simpáticos: pedem com licença, desculpam-se por incomodar e pedem o favor de apagar o texto”, comenta com ironia.

Para Wang, a China de hoje balança entre parecer mais aberta e a absoluta resolução em calar opiniões, críticas e dissidências.

“Temos um grande Exército, energia nuclear, dinheiro. A China não tem medo de militares. Tem medo de escritores”, afirma.

Em junho deste ano, Wang abriu uma conta no microblog mantido pela Xinhua, a agência oficial de notícias do governo. Após três comentários, a conta foi bloqueada pelas autoridades. “Foi um recorde!”, ironiza.

Wang estudou Direito na universidade. Ele lembra que no terceiro ano do curso, decidiu nunca mais querer ter contato com a lei na China e optou por uma carreira no jornalismo. Hoje, a sua renda vem da revista Sanlin, para quem escreve como jornalista contratado.

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