Famílias de soldados britânicos mortos se dizem chocadas com grampos de tabloide

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Image caption O tabloide News of The World é o o jornal mais vendido aos domingos na Grã-Bretanha

Famílias de soldados britânicos mortos no Iraque e no Afeganistão se disseram nesta quinta-feira chocados com a informação de que seus telefones celulares podem ter sido grampeados pelo tabloide dominical News of The World.

Os números dos celulares de familiares de soldados mortos teriam sido encontrados nos arquivos do detetive particular Glenn Mulcaire, que trabalhou para o tabloide, segundo o jornal The Daily Telegraph.

O News of The World, de propriedade da mesma empresa que edita os diários The Sun e The Times, é acusado desde 2006 de ter pagado detetives para interceptar mensagens telefônicas de celebridades, políticos e esportistas.

O "escândalo dos grampos" ganhou força nesta semana com a descoberta de que o jornal também pagou para interceptar mensagens de famílias de vítimas dos atentados de 7 de julho de 2005, em Londres, e do celular da menina Milly Dowler, que desapareceu em 2002, aos 13 anos, e depois foi encontrada morta.

'Raiva'

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Image caption Rose Gentle, mãe de fuzileiro morto no Iraque em 2004, pediu a punição dos responsáveis

Rose Gentle, mãe do fuzileiro Gordon Gentle, morto por uma bomba em Basra, no Iraque, em 2004, afirmou à BBC que há "muita raiva" entre as famílias dos soldados mortos.

Segundo ela, muitos familiares estão agora se perguntando se estão entre os grampeados pelo jornal. "A polícia deveria contactar as famílias imediatamente para tirá-los do sofrimento da dúvida", disse.

Gentle pediu ainda que as investigações prometidas na véspera pelo premiê David Cameron sejam iniciadas imediatamente e que se as denúncias forem comprovadas, os responsáveis sejam processados.

Jim Gill, padrasto do tenente Richard Shearer, morto no Iraque em julho de 2005, disse que o caso é “penoso”. “É penoso para todas as pessoas que foram grampeadas e especialmente às pessoas que enfrentam um luto”, disse ele ao programa Breakfast, da BBC.

Para Adrian Weale, representante do associação de militares Federação das Forças Armadas Britânicas, “esta é uma situação lamentável, se de fato ocorreu”.

“Se você perde um parente numa situação operacional, é um momento de máxima angústia, de luto e desolação, e a ideia de que um tabloide esteja fuçando nas suas mensagens e ligações telefônicas privadas para encontrar sujeira para suas histórias é simplesmente inacreditável”, afirmou.

O coronel Richard Kemp, ex-comandante das forças britânicas no Afeganistão, disse que as acusações o deixaram “absolutamente sem palavras e com raiva”.

Pressões

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Image caption Murdoch vem sendo pressionado a demitir Rebekah Brooks, presidente-executiva de sua empresa

A intensificação do escândalo dos grampos vem aumentando as pressões sobre a empresa News Corporation, do empresário australiano Rupert Murdoch, proprietária do News of The World, para que demita sua presidente-executiva, Rebekah Brooks, que era editora-chefe do tabloide dominical na época em que teriam ocorrido as interceptações de mensagens.

A empresa já vem sentindo o efeito do escândalo, com o anúncio do cancelamentos de publicidade por vários grandes anunciantes. Ações da News Corporation caíram mais de 3% na Austrália e nos Estados Unidos.

Em um comunicado divulgado na quarta-feira, Rupert Murdoch afirmou que a empresa está contribuindo com as investigações policiais e manifestou seu apoio a Brooks.

“Estamos comprometidos em resolver completamente essas questões e tomamos várias medidas importantes para evitar que elas ocorram novamente”, afirmou.

Um porta-voz da companhia disse ainda que o histórico da empresa “como um amigo das forças armadas e dos soldados e soldadas é impecável”.

“Nossos títulos fizeram campanhas de apoio aos militares por muitos anos e continuarão a fazê-lo. Se essas acusações forem verdadeiras, ficaremos absolutamente chocados e horrorizados”, disse.

O News of The World é o jornal mais vendido aos domingos na Grã-Bretanha, com uma circulação média de quase 2,8 milhões de exemplares.

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