Casal com bebê luta para adaptar a vida à falta de empregada

Mariana e Thiago Lago com o filho Francisco
Image caption Mariana e Thiago Lago tiveram que mudar seus hábitos para se adaptar à falta de empregada

Mariana e Thiago Lago estão casados há dois anos e meio, mas viram a rotina mudar drasticamente desde o início do ano. Não foi a chegada do pequeno Francisco, há sete meses, que trouxe o pandemônio. Sem dinheiro para pagar uma diarista, o casal luta para dar conta de trabalho, filho e afazeres domésticos.

Professora de literatura na PUC-Rio, Mariana, de 30 anos, costumava dividir as tarefas do trabalho entre a universidade e a casa. Era lá que preparava aulas, corrigia trabalhos, estudava para o doutorado.

Neste semestre, ela viu uma lista inesgotável de obrigações se impor sobre o tempo que dividiria entre a profissão e a recente maternidade: lavar louça, lavar roupas, passar, cozinhar.

Esfregar o piso, limpar o banheiro e outros afazeres mais pesados ela deixa para o Thiago. Mariana está grávida do segundo filho e não pode fazer esforço físico.

"A gente fica tentando se organizar para manter a casa minimamente habitável. É muito no susto, a gente faz o que é mais urgente. Junta uma pilha de roupa suja e tem que lavar, o banheiro fica sujo e tem que parar para limpar", conta ela. "Mas não fica tudo maravilhoso como quando tem empregada."

Assim como o casal, muitas famílias brasileiras habituadas a contar com empregadas domésticas poderão ter que mudar os hábitos e dividir as tarefas do lar, seja pela migração de profissionais da categoria para outros setores da economia, seja por não conseguirem mais pagar pelo serviço.

'Tudo ficou mais caro'

Mariana e Thiago moram em Vila Isabel, bairro de classe média na zona norte do Rio, num apartamento alugado. Quando se casaram, contavam com uma diarista uma vez por semana, cobrando R$ 60. Ano passado, uma outra passou a vir duas vezes, por R$ 80.

Mas neste ano o orçamento apertou e tiveram que abrir mão da ajuda – logo depois que o primeiro filho chegou.

"Quando chegou o mês de março, a gente já não podia pagar nem para alguém vir uma vez por semana. O nosso salário continua o mesmo, mas tudo ficou muito mais caro na cidade", diz Mariana.

Com mais um filho a caminho, o casal estava preocupado se daria conta do recado sem ajuda doméstica. E então o boom imobiliário de que tanto se fala atualmente no Rio bateu à porta: o contrato de aluguel que vence em agosto dobraria dos atuais R$ 900 para R$ 1.800.

Foi o estopim para resolverem se mudar para Niterói, município vizinho ao Rio, onde cresceram. Lá, têm à disposição um apartamento da família de Mariana e não precisarão pagar aluguel.

"Foi um baque. A gente pensou muito antes de resolver. Eu queria muito ficar no Rio para estar perto do trabalho, de escolas para as crianças e da vida cultural", diz.

"Mas essa situação atrapalha muito a nossa vida. Com as duas crianças, a gente vai precisar alguém trabalhando para a gente, e lá vai dar para pagar alguém que venha todos os dias, com carteira assinada. Vai ser fundamental para conseguirmos cuidar das duas crianças e continuar a trabalhar."

Thiago, de 27 anos, é produtor cultural e também trabalha em casa grande parte do tempo. Ou trabalhava. "Agora, a casa fica sempre como prioridade, e as coisas do trabalho que tinham que ser feitas ficam para depois", diz Mariana. "O dia a dia trabalhando e sem uma empregada é um inferno."

Mesmo o tempo de lazer ficou comprometido. "Quando a gente está livre no fim de semana, em vez de ir à praia fica tentando deixar a casa limpa", diz.

Mariana considera que parte das dificuldades vem da falta de costume, já que cresceu habituada à ajuda doméstica na casa dos pais. "Mas além de a gente não ter esse hábito, trabalhar fora atrapalha muito. Quando chego em casa do trabalho, não quero mesmo lavar cozinha, lavar banheiro."

Ela sente que a responsabilidade pelos afazeres domésticos pesa mais sobre ela, por ser mulher. "A sorte é que o Thiago percebeu que eu não ia dar conta, com o bebê pequeno, e tenta ajudar. Mas mesmo os dois trabalhando fora, na hora de administrar as coisas quem fica na frente mesmo é a mulher. É algo muito arraigado na nossa cultura."

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