Temor sobre dívida pública da Itália derruba bolsas europeias

Van Rompuy e Sílvio Berlusconi. Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Rompuy convocou reunião de emergência sobre crise; fragilidade de Berlusconi cria instabilidade

As bolsas europeias fecharam em baixa nesta segunda-feira, com o temor por parte de investidores de que a Itália não consiga cumprir compromissos com seus credores. Em Milão, a bolsa caiu 3,96%, enquanto o índice DAX, de Frankfurt, caiu 2,33%.

O motivo do temor é a alta dívida pública italiana, equivalente a 120% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Entre os países da zona do euro, este percentual só menor que o da Grécia, cujo endividamento atinge 150% da riqueza nacional.

O assunto chegou a ser tratado na reunião de emergência dos chefes de Estado e de governo dos países da zona do euro, convocada nesta segunda-feira em Bruxelas pelo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy.

A Itália, terceira maior economia da zona do euro (atrás apenas de Alemanha e França), tem honrado seus compromissos, mas o temor de contágio da crise grega derrubou a bolsa de Milão na última sexta-feira. As empresas com maior perda foram justamente os bancos credores do governo.

O temor em relação à Itália provocou ainda uma alta na taxa de juros dos títulos italianos, que hoje pagam 2,45% a mais que os títulos alemães (considerados mais seguros), uma diferença recorde desde a implantação do euro, em 2002.

Segundo o jornal britânico Financial Times, a percepção de crise eminente também fez os hedge funds (fundos de cobertura, uma espécie de seguro contra calotes) começarem a duvidar da capacidade de Roma cumprir em dia seus compromissos.

Instabilidade

Segundo Juan Carlos Martínez Lázaro, analista do Instituto de Empresas de Madri, na Espanha, o temor sobre a dívida italiana ocorre por três fatores: instabilidade política, percepção dos mercados e especulação financeira.

"A coalizão (de governo de centro-direita) sofreu uma derrota humilhante nas recentes eleições municipais, (o primeiro-ministro Silvio) Berlusconi anunciou que não vai concorrer a um novo mandato e há uma grande luta interna no governo", disse ele, em entrevista à BBC Mundo.

Para Martínez Lazaro, "a dúvida sobre a capacidade de Roma de executar um plano de austeridade fiscal rigoroso, que os investidores consideram necessário, vem causando nervosismo nos mercados".

A Itália também foi cobrada pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que pediu ao governo de Roma que se mostre decisivo ao aplicar seu plano de austeridade fiscal.

A Itália tem uma das economias menos dinâmicas da Europa. O país cresce pouco e tem uma população em processo de envelhecimento. Em 2010, o PIB italiano foi de US$ 2,05 trilhões, já ultrapassado pelo do Brasil, de US$ 2,09 trilhões, segundo dados do FMI.

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Image caption Analistas dizem que Itália não é a Grécia; especulação aumenta juros dos títulos italianos

Especulação

Apesar do temor dos investidores, analistas ressaltam que a Itália não representa um risco tão grande quanto a Grécia.

Martínez Lazaro vê especulação por parte dos investidores, já que, até agora, os italianos vem pagando em dia sua dívida pública e, segundo ele, "não há perigo de insolvência".

"É a típica irracionalidade dos mercados. Os títulos italianos hoje pagam juros de alto risco, mas em nenhum momento o país teve dificuldade para fazer frente a seus compromissos."

Ele lembra que "os credores do governo são fundamentalmente italianos, ou seja, não se trata de uma dívida pública dispersa pelo mundo, o que faz mais fácil a negociação" com os bancos.

Vicenç Navarro, professor da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, diz que é importante para as economias europeias que o capital financeiro seja menos poderoso. "Hoje, seu poder é uma das causas da crise", disse.

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