Ivan Lessa: Guia para se livrar de um zumbi

Nesta semana que viu um centenário jornal bater as botas e ir para a cucuia (meu estilo é popular como um tabloide de Rupert Murdoch), optei por falar da imprensa alternativa, que mencionei na coluna de sexta-feira, sob a forma simpática e inofensiva do jornal de bairro, uma tradição sem grampos, escândalos ou mulher pelada na terceira página.

Leviandade por leviandade, eu prefiro as minhas “traje passeio”, conforme se dizia.

Faltou falar de novo no jornal de metrô, distribuído gratuitamente nesse popular veículo de transporte e, agora, de comunicação também.

Há menos canalhices. Lá estão as questões sérias ou enfezadas a que estamos todos sujeitos. Mas dão destaque também, felizmente, às tolices inofensivas, pois elas também, talvez mais até do que pensamos, fazem parte de nossa ração diária de informações. Já falei do jornaleco – e uso o termo sem desdenhar – antes.

Ontem, domingo, comemorou-se, de uma forma geral, o fim de um órgão de informação, o tabloide News of The World, de 168 anos, 145 deles contribuindo no formato e no conteúdo sóbrio, por muitas vezes de utilidade pública, ou seja, dando uma boa pedrada nessa raça perigosa a que chamam de “políticos”.

Foi em 1968, quando aqui cheguei pela primeira vez, que o antípoda Rupert Murdoch cravou suas garras no hoje tabloide ultra-sensacionalista News of The World, que, entre seus triunfos até então, tinha a honra de ter derrubado ministro da Guerra mendaz, John Profumo, que mentira no Parlamento (na época pegava mal) ao negar sua relação com senhoritas de vida airada, como o próprio NoW (abreviando) de então diria, as notórias garotas de programa, Christine Keeler e Mandy Rice-Davies.

O drama-farsa foi aos tribunais, uma vez que, de seu enredo, faziam parte um gigolô, um osteopata bem, mas muito bem relacionado, o doutor Stephen Ward, e um adido da embaixada soviética, Yevgeny Ivanov, na verdade espião, pois espionar não era, então, privilégio, do quinto poder, embora fosse bem menos “tóxico”, como os ingleses gostam de dizer, do que os atuais jornalistas e seus arsenais tecnológicos.

Profumo cumpriu pena, e, mais, redimiu-se, após dedicar o resto de sua vida passando a cuidar dos pobres. Recebeu comenda real.

Stephen Ward suicidou-se de vergonha (é, nos anos 60, com maconha, minissaia, swinging London e tudo, ainda havia vergonha na cara), o russo voltou para seu país e as moçoilas tiveram seus 15 minutos de popularidade seguidos de anos de dinheiro curto e olvido.

Visto isso, para dar uma ideia de em que base funcionava o falecido órgão que neste domingo que passou, passou desta para, espero, pior, volto ao Metro, o jornal do metrô. Sim, noticiaram a transubstanciação do NoW, que deve voltar, tudo indica, aos seus sórdidos trabalhos habituais, com base em outro título do estábulo do hoje cidadão americano Rupert Murdoch, dono talvez do maior império de comunicação (não chamemos de social que dá um mau nome ao gênero) do mundo, a Fox. É, aquela dos filmes. Dos Simpsons. Daquelas séries todas, umas muito boas. Chato, né?

Voltemos ao banco do metrô onde deixaram, como é educado hábito, na movimentada sexta-feira, 8 de de julho, quando tudo acontecia com o NoW, um exemplar do irmão pobre do trabuco ainda soltando fumaça de Murdoch: um guia para você reconhecer um zumbi em caso de invasão.

Esse o título da matéria de meia-página ímpar e quatro cores (juro!), com todos os dados direitinho no lugar sem recorrer a informante policial ou grampo.Empregando apenas um documento divulgado, sem gozação (não juro), pelo Conselho Municipal da cidade de Bristol, no sudoeste da Inglaterra, um próspero centro cultural que vive principalmente da pesca.

O guia foi elaborado devido a pedidos dos contribuintes da cidade. Segundo o documento oficial, só haverá motivo para pânico quando as infecções provocadas pelos zumbis atingirem 30% da população, que é o nivel pandêmico da praga dos zumbis.

O Conselho de Bristol deverá – continuo falando sério o que sério foi feito e dito – designar um esquema de treinamento para enfentar os zumbis.

Encerro dando algumas das informações que o Conselho adiantou aos seus cidadãos, que, porventura, não tenham visto nenhum dos filmes do esplêndido americano George A. Romero.

Recomenda-se o uso de armas de choque e algemas (algemas?). Tentar desconectar a cabeça do zumbi do resto de seu corpo com objeto cortante ou equivalente. Ficar atento aos meios de comunicação (à exceção óbvia do NoW).

Evitar contato direto e desprotegido com os zumbis. E, principalmente, cuidado ao se aproximar de um zumbi, pois eles são extremamente agressivos.

Não mencionaram a hipótese de uma possível ressurreição de nosso Zumbi (do quimbundo “duende” ou “feiticeiro”) dos Palmares, abandonando seu busto no nordeste do Brasil (embaixo lê-se “Líder Negro de Todas as Raças”) e pegando, ilegalmente, claro, a direção da precavida cidade de Bristol.

Esse Zumbi, meio refugiado, eu deixaria em paz. O pobre homem já teve, em sua época, a cabeça cortada, salgada e exposta em praça pública.

Quanto ao resto da zumbirada, sugeriria eu tentar uma vaga numa das empreitadas de Rupert Murdoch.