Análise: Extensão de acordo anticrise supera expectativas

O premiê grego, George Papandreou (esq), com os líderes europeus Herman Van Rompuy e José Manuel Barroso (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Medidas decididas em encontro desta quinta são mais amplas do que se previa, diz analista

Após longas negociações em Bruxelas, líderes da zona do euro criaram nesta quinta-feira um plano ainda maior do que o esperado para combater a crise da dívida grega.

Marie Diron, conselheira econômica sênior para a empresa Ernst & Young, comentou: “Os governos da zona do euro concordaram em uma série de medidas mais extensas do que sugeriam os dissonantes comunicados (emitidos pelos políticos) previamente à reunião”.

Em primeiro lugar, a Grécia vai receber um empréstimo estimado em 109 bilhões de euros (R$ 242 bilhões). Com o envolvimento do setor privado, esse número pode subir a 169 bilhões de euros.

A taxa de juros paga nos atuais empréstimos do país será cortada em um ponto percentual. O período que o país terá para pagar a dívida dobrará.

O papel do principal órgão de resgate da região - Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira, o fundo de resgate temporal do bloco – ganhará poderes e será ampliado radicalmente, para agir quase como um fundo monetário europeu, ajudando agressivamente bancos e países em dificuldade.

Leia também na BBC Brasil: Zona do euro fecha acordo para conter crise grega

O setor privado – os bancos – concordou em contribuir, inicialmente, com 37 bilhões de euros e em aceitar perdas, ao revender os títulos que possuem a um preço menor. Ainda existe a possibilidade, porém, de as agências de risco classificarem a manobra como uma espécie de moratória da Grécia.

Calcula-se que a contribuição do setor privado chegue a 106 bilhões de euros nos próximos oito anos. Mas essa cifra tem de ser vista com cautela. É preciso ressaltar que o envolvimento dos bancos será voluntário.

‘Solução excepcional’

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, ressaltou que as condições decididas nesta quinta para a Grécia são “uma solução excepcional, vetada para outros” países.

A intenção era mandar um recado, de que outros bancos credores de outros países endividados na Europa não serão expostos a situação semelhante. Barroso tenta, com a declaração, não afugentar investidores de outras frágeis economias europeias.

“A principal incerteza é se os mercados financeiros vão aceitar as declarações oficiais de que este acordo é apenas para Grécia”, opinou Marie Diron. “O custo econômico se tornará muito mais alto se a zona do euro precisar passar por um processo semelhante com Irlanda e Portugal (outros países que receberam pacotes de resgate e que estão altamente endividados).”

O premiê da Grécia, George Papandreou, disse que a dívida grega será reduzida em 26 bilhões de euros até 2014. Mas, com o endividamento crescente por conta dos empréstimos, essa redução pode não ser tão significativa quanto parece.

Papandreou prosseguiu: “O povo grego é orgulhoso, criativo e engenhoso. A única coisa que estamos pedindo é o direito de fazer mudanças profundas. E estamos comprometidos em implementar esse programa de mudanças”.

Apesar das palavras comoventes, persistem as dúvidas quanto a se, tendo recebido um segundo pacote de resgate, a Grécia continuará comprometida com as impopulares medidas de austeridade e com as privatizações prometidas.

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Image caption Angela Merkel disse que bloco não usará 'varinha mágica' para conter crise

O que pode ajudar é o fato de os líderes europeus reconhecerem que a Grécia precisa crescer, e oferecerem dinheiro de fundos estruturais da União Europeia.

A chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, disse que o esforço desta quinta não era de “usar uma varinha mágica, mas sim de ajudar a Grécia a retornar à estabilidade. Estou confiante que podemos ter sucesso nessa empreitada”.

O acordo desta quinta também aceita baixar as taxas de juros pagas pela Irlanda e por Portugal em seus pacotes de resgate. O Fundo Monetário Internacional disse que a decisão “realmente muda o jogo”.

Com o plano, os líderes europeus colocaram à mostra suas armas contra a crise. Resta saber que efeito real essas medidas terão na redução da enorme dívida grega.

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