Sorteio da Fifa no Rio é marcado por críticas a custos e protesto do lado de fora

Da esq.: presidente da FIFA, Joseph Blatter, a presidente Dilma Rousseff, Pelé e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira  (AFP) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Joseph Blatter, Dilma Rousseff, Pelé e Ricardo Teixeira participaram da cerimônia no Rio de Janeiro

O pontapé inicial para a Copa de 2014 foi dado no Rio de Janeiro neste sábado, com o sorteio para definir os grupos que disputarão as partidas eliminatórias. A festa na Marina da Glória transcorreu bem, mas, nos bastidores, foi marcada por críticas aos altos custos, tensões geradas por denúncias de corrupção e expectativas quanto à abertura do mundial.

O evento da Fifa começou às 15h em ponto, com imagens ensolaradas do Rio mostrando esportes na praia, escolas de samba e uma faixa de boas-vindas à Copa do Mundo da Fifa nos pés do Cristo Redentor.

Os sorteios para definir os grupos dos 175 times que concorrem a 31 vagas na Copa (a 32ª já está garantida para o Brasil) foram realizados por um time de craques jovens e veteranos, como Zico e Bebeto, Ganso e Neymar.

Na abertura, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse estar feliz com o fato de a Copa estar retornando ao Brasil, 64 anos depois da edição de 1950. Ele apontou que data deste sábado é histórica por marcar exatos 91 anos desde etapa final da primeira Copa do Mundo, em 1930, entre Argentina e Uruguai, em Montevidéu (o país sede saiu campeão).

Blatter reafirmou ter confiança no governo brasileiro e no Comitê Organizador Local (COL), fazendo menção também ao "querido colega" Ricardo Teixeira, presidente do COL e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Com tailleur azul marinho de golas com bordas brancas, a presidente Dilma Rousseff subiu ao palco depois de ser apresentada por Blatter em português ("a excelentíssima presidenta da República") e disse que o Brasil está fazendo a sua parte para que a Copa de 2014 "seja a maior de todos os tempos".

"Estejam certos que este novo Brasil estará pronto para encantar o mundo em 2014", disse, destacando esforços nas áreas de infraestrutura, comunicações e segurança.

A presidente ressaltou a paixão brasileira pelo futebol, mas disse que o país tem hoje "muitos motivos" para se orgulhar.

"Temos hoje uma economia estável e em crescimento. Nos últimos oito anos levamos para a classe média quarenta milhões de brasileiros. Somos um país que promove inclusão social e que tem na diversidade étnica, cultural e religiosa uma de suas maiores riquezas", disse, convidando a plateia mundial a conhecer melhor o país e prometendo que os torcedores seriam recebidos "com muito carinho".

Leia mais na BBC Brasil: Fifa sorteia grupos das eliminatórias para a Copa de 2014

Protestos

O clima alegre e harmônico que os discursos e as imagens procuraram transmitir, porém, tiveram seu contraponto em um protesto paralelo ao evento e nas tensões que escalaram nos dias anteriores em coletivas de imprensa, onde jornalistas abordaram as denúncias de corrupção que foram feitas nos últimos meses contra o presidente do Comitê Organizador Local, Ricardo Teixeira, e contra a Fifa de Joseph Blatter.

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Image caption Manifestantes se reuniram do lado de fora do evento

Do lado de fora do evento, o trânsito do Aterro do Flamengo chegou a ser interrompido por cerca de 500 manifestantes que marcharam até o local. Eles pediam a destituição de Teixeira, maior transparência na organização da Copa e da Olimpíada e o fim das remoções de moradores de comunidades carentes que estão sendo deslocados pelas obras de infraestrutura ligadas aos dois grandes eventos.

O protesto foi organizado pelo Comitê Popular da Copa e da Olimpíada, que reúne representantes da sociedade civil, professores universitários e militantes de partidos de esquerda.

"Não somos contra a realização da Copa e da Olimpíada, mas vemos a realização dos jogos como uma oportunidade para mudar um modelo de cidade que ficou inviável e construir uma cidade para todos", disse Marcelo Braga, um dos dirigentes do comitê, na sexta-feira, em apresentação das reivindicações do grupo à imprensa.

Um folheto em inglês a participantes na entrada do evento dizia: "Enquanto a festa de US$ 20 milhões para os jogos de qualificação para a Copa de 2014 acontece no dia 30 de julho, milhares de moradores do Rio estão sendo removidos de suas casas nos preparativos para o torneio."

Altos custos

A festa e a estrutura armada para o sorteio receberam críticas da imprensa por ter custado R$ 30 milhões aos cofres públicos. A verba veio dos governos do Estado e do Município do Rio.

Segundo a prefeitura, promover o evento é uma forma de sinalizar que a cidade está preparada para sediar a Copa e uma boa oportunidade de divulgar a imagem do Rio no exterior. Cerca de mil jornalistas de quase cem países acompanharam o sorteio.

O orçamento foi usado para construir a enorme estrutura de tendas montada na Marina da Glória (com espaços separados para o sorteio, para a mídia e para os estandes de patrocinadores e das cidades sede); e também para transformar o evento em uma festa, com direito a comes e bebes e atrações musicais.

Entre os blocos de sorteio, uma grande cúpula no palco era virada para revelar a próxima atração musical, um pouco como na cerimônia do Oscar (e contando também com uma dupla de apresentadores, a modelo e atriz Fernanda Lima, vestindo um longo verde, e o apresentador da TV Globo, Tadeu Schmidt).

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Image caption Palco grandioso tinha cúpula giratória para atrações musicais

Os cantores Ana Carolina, Ivan Lins, Daniel Jobim (neto do maestro Tom), Ivete Sangalo e a Orquestra Sinfônica de Heliópolis passaram pelo palco, apresentando-se à plateia de políticos, patrocinadores, dirigentes e ilustres do mundo do futebol.

Abertura da Copa

O corredor de entrada do evento era cercado por estandes das doze cidades sede. Elas trouxeram panfletos, brindes e destaques da cultura local - mas também políticos.

No esforço de garantir maior espaço e visibilidade no campeonato, diversos prefeitos e governadores marcaram presença no evento. Entre os últimos estavam Agnelo Queiroz, de Brasília, Jaques Wagner, da Bahia, e Geraldo Alckmin, de São Paulo.

Os três pleiteiam o privilégio de sediar a abertura da Copa do Mundo na sua capital, objetivo disputado também por Belo Horizonte. Outras procuram garantir espaço na Copa das Confederações, que será realizada em um número que varia de quatro a sete cidades.

As definições serão anunciadas em outubro, mas a imprensa já está dando como certa a escolha de São Paulo para a abertura. Falando à BBC Brasil, o governador Geraldo Alckmin disse que acha que o pleito "está indo bem".

"Tecnicamente, São Paulo é uma cidade muito preparada para eventos desse porte. Tem uma rede hoteleira excepcional, e a questão do estádio, que era o principal obstáculo, está superada", diz.

"Esse é o maior evento mundial, e a cobertura de mídia é até maior na abertura do que na final. Movimenta a economia, é um evento de grande significado. Nós estamos otimistas. Foi muito bonita a festa aqui do sorteio da preliminar, muito bem organizada. Acho que começou bem", considera Alckmin.

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