Quais são as alternativas para conter a violência em Londres?

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Image caption Cerca de 16 mil policiais foram mobilizados para patrulhar Londres na terça-feira

Após três noites de tumultos em Londres e episódios de violência em outras cidades britânicas, muitos na Grã-Bretanha perguntam se a polícia pode fazer mais para manter a segurança.

A ministra do Interior do país, Theresa May, disse que, ao contrário de outras nações, a Grã-Bretanha não costuma usar métodos como canhões d’água e toques de recolher contra desordens, mas que escutaria a opinião da polícia "nessas circunstâncias".

Veja abaixo alguns métodos que poderiam ser usados para conter a violência:

Canhões d’água

Canhões d’água, que lançam jatos de forte pressão sobre multidões, são usados na Irlanda do Norte e em países europeus como França e Alemanha.

O parlamentar conservador e ex-policial Patrick Mercer defende o método afirmando que já o usou e que o considera "extremamente eficiente".

O especialista em desordens públicas da Universidade de Belfast Peter Shirlow disse que canhões d’água podem ser formas eficazes de conter pessoas espalhadas em espaços abertos, dirigindo-os para uma região específica.

No entanto, ele afirma que, como os canhões nunca foram usados na Grã-Bretanha, as autoridades arriscariam enviar uma mensagem de que estariam "perdendo o controle" e inflamando os ânimos em um país "que nunca se sentiu confortável com a idéia de militarização".

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O professor de políticas sociais na Universidade de Wolverhampton Peter Waddington diz que, além disso, obter tais canhões rapidamente pode ser complicado.

"Você não os fabrica por mágica. Existem seis (fábricas) na Irlanda do Norte, mas estamos na temporada de passeatas (tradicional foco de problemas entre católicos e protestantes na região) e não tenho certeza se a polícia estaria ansiosa para enviá-los", disse.

Balas de borracha

Armas com balas de borracha também já foram usadas para conter multidões na Irlanda do Norte. O recurso é considerado uma alternativa quase sempre não-letal, mas já ocorreram casos de mortes com o seu uso.

Tais balas podem ser disparadas de armas convencionais e são feitas de plástico ou borracha para minimizar o impacto.

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"Balas de borracha são uma das alternativas menos letais disponíveis e são usadas livremente em todo o mundo", diz Waddington.

"Mas, simbolicamente, ter canhões d’água e armas disparando balas de borracha nas ruas de Londres pareceria o fim do mundo", afirma o professor.

Shirlow diz que a alternativa pode ser útil para conter multidões temporariamente, mas seu potencial letal pode fazer com que a polícia "perca a autoridade moral" ao usá-la.

Apressar a burocracia

A papelada que os policiais têm de preencher cada vez que prendem alguém e o tempo que levam para isso é considerado grande. Waddington sugere que uma opção seria suspender alguns dos requerimentos para permitir a volta mais rápida dos policiais às ruas.

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"Você gasta horas em uma operação, mesmo sabendo que (os detidos) serão acusados de crimes leves", diz ele.

Mas o especialista diz acreditar que o governo relutaria em tomar tal atitude, que poderia sinalizar que o país atravessa um "sério estado de emergência".

Toque de recolher

A parlamentar Diane Abbot, que representa a região de Hackney, um dos centros da violência, pediu a implementação de um toque de recolher para permitir que a polícia "recupere o controle das ruas".

"O que não podemos ter são números cada vez maiores de jovens voltando para saquear, noite após noite", diz ela.

No entanto, Shirlow diz que impor tal restrição de movimento seria especialmente difícil em um momento em que as forças policiais já estão sobrecarregadas, além de desviá-las de áreas em que elas poderiam ser mais úteis.

Exército

Mark Fisher, um dos líderes do conselho local de Croydon, pediu a intervenção do Exército depois que prédios dessa região de Londres foram incendiados e saqueados.

"Precisamos de recursos adicionais. Estes podem ser da polícia, mas, caso contrário, devemos pensar no envio do Exército e de outras forças armadas", disse.

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Shirlow diz que militares britânicos teriam experiência em lidar com situações de violência, por seu envolvimento na Irlanda do Norte e no Iraque.

"Em outros países, eles seriam enviados em um piscar de olhos", disse ele.

Mas ele disse que nenhum premiê britânico gostaria de ser lembrado como o que rompeu a tradição de não usar militares nas ruas.

O acadêmico também argumenta que pode existir um choque de culturas entre policiais treinados para lidar com distúrbios civis e forças preparadas para combates militares.

Waddington diz ainda que a alternativa pode ser complicada em termos logísticos.

"Como você vai equipá-los? Se não carregarem armas de fogo, o que então?"

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